Francisco José Viegas

Escritor

'Uma História em Duas Cidades': Política, revolução, destino

24 de maio de 2026 às 00:30
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Poderia começar por falar de ‘David Copperfield’ (1836) e de ‘Grandes Esperanças’ (1860), dois romances inesquecíveis de Dickens em que David e Pip, respetivamente, ocupam todo o palco – Dickens é um fabuloso criador de personagens, e não é preciso falar de ‘Oliver Twist’ ou do ‘Conto de Natal’. Com ele regressamos ao mundo de há dois séculos e respiramos o odor, a miséria, a pobreza e a dificuldade de viver da Inglaterra daquele tempo (o cenário de ‘Tempos Difíceis’) – mas também o amor por Inglaterra, a descrença e a esperança, os argumentos de um talento extraordinário, a capacidade de criar histórias intrincadas e complexas, de estrutura indefinida e de grave consciência social. Poucos escritores como Dickens conseguiram essa força desde a primeira obra. Houve autores que só o tempo despertou da letargia e do preconceito, como Melville, por exemplo, que em 1900 se considerava apenas “um cronista da vida marítima”, como relembra Jorge Luís Borges, que apreciava Dickens como “grande artífice gótico”, prolixo como uma catedral. Melville foi descoberto com o tempo, que recuperou ‘Moby Dick’ como um romance fundador (da América) e ‘Bartleby’ como um território entre Dickens e Kafka – mas Dickens foi um escritor popular desde o início, quase como um “cavalheiro da indústria”, mas da indústria literária, onde subiu a pulso e com solidez – no outro extremo do que foi a vida de Jane Austen, que se manteve no anonimato, ou de Emily Brontë, que publicou ‘O Monte dos Vendavais’ com o pseudónimo Ellis Bell, ou como Mary Ann Evans, que escreveu o prodigioso ‘Middlemarch’ como George Eliot. Onde Austen, também por ser mulher, era a campeã da timidez, Dickens foi o mais popular dos artistas britânicos do seu tempo.

Dickens transformou tudo em literatura (o exemplo é ‘Pickwick Papers’, que, curiosamente, a rainha Victoria elegeu como um dos seus livros preferidos). Mas ‘Uma História em Duas Cidades’ (1859) é provavelmente o seu romance mais desafiador, logo desde as primeiras linhas, em busca de Manette, da sua prisão na Bastilha durante 18 anos, do Terror durante a Revolução Francesa e do reencontro familiar. As duas cidades são Paris e Londres, o cenário é o da revolução e da pobreza, o da brutalidade, e o das sombras tardias da contra-revolução. Mas, sobretudo, é arranque mais comovente de todos os seus livros e, com certeza, de toda a literatura europeia (incluindo ‘Anna Karenina’, de Tolstoi), misturando melancolia e ardor, nostalgia e maldição, arrependimento e vontade: “Foram tempos magníficos, foram tempos tenebrosos, foi a era da sabedoria, foi a era da estultícia, foi a época das convicções, foi a época da incredulidade, foi a idade da luz, foi a idade das trevas, foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, íamos todos direitos para o céu, íamos todos em sentido contrário [...].” Esta é a tradução de Paulo Faria e tem de ser lida pausadamente. Os três “livros” que compõem o romance são três histórias que podiam sobreviver por si só, independentes, ligadas por coincidências espirituosas, irónicas e que Dickens sabia explorar como ninguém. Não há nada de mais avesso à era vitoriana do que o seu génio.

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Não deixa de ser maravilhoso, oferecendo-se como pasto às nossas reflexões, o facto de todas as criaturas humanas constituírem para todas as outras o mais profundo segredo e mistério. Quando entro numa cidade em plena noite dou por mim a refletir que cada uma daquelas casas encerra o seu próprio segredo.

TÍTULO ‘A Tale of Two Cities’ / ‘Uma História em Duas Cidades’ AUTOR Charles Dickens DATA 1859

1859 História em Duas Cidades

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