José Diogo Quintela

Opinião

Venha à Venezuela. Almoce antes

28 de maio de 2016 às 00:30
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Há dias ia havendo bulha na Assembleia da República por causa da Venezuela. Só que não foi com deputados portugueses, foi entre um italiano do Parlamento Europeu e um venezuelano. Os nossos estão sossegados. Sobre o Brasil e Angola dizem imensas coisas, mas sobre a Venezuela, calam-se. É normal, a incoerência dos políticos. Bizarro é o silêncio das muitas pessoas que costumam dizer "vamos a Cuba antes que o Fidel morra e a democracia estrague o país". São turistas da desgraça alheia, que visitam ditaduras socialistas para observar o povo não corrompido pelos avanços da civilização ocidental, como quem vai a um safari assistir à ingestão de uma zebra por um leopardo.

Estarão a fazer as malas? É que a experiência marxista da Venezuela já não dura muito. A inflação está tão alta que nem há pilhas que alimentem a calculadora que faz a conta. Se querem ver as pitorescas bichas para comprar leite, as cenas de pancadaria por causa de uma aspirina, o sorriso das crianças pedintes ("tão felizes, apesar do pouco que têm!"), é melhor despacharem-se. Daqui a nada não há electricidade na torre de controlo do aeroporto de Caracas. Mas vale a pena ir. Se os calaceiros funcionários do Turismo da Venezuela trabalhassem, em vez de desfalecer por inanição, cunhariam estupendos slogans:

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"Venezuela, o país que faz o Brasil parecer aborrecido como a Noruega."

"Sabia que na Venezuela ninguém parte ossos? Pois se não temos raio-X!"

"Venha experimentar pratos típicos venezuelanos. Traga os do seu país, para a troca."

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"Venezuela, o país com as maiores reservas de petróleo do mundo. E o país sobre o qual o mundo tem as maiores reservas."

"Venha à Venezuela e passe horas nas compras!"

"Venezuela, um país em forma de um daqueles episódios do ‘MasterChef’ em que têm de cozinhar uma refeição só com um ingrediente."

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Claro que há muita desinformação. Há duas semanas, anunciaram que Germán Mavare, o líder da oposição, tinha sido morto com um tiro na cabeça. Custa a crer. Falta tudo na Venezuela, mas querem convencer-nos que ainda há balas? Se já nem há açúcar para fabricar Coca-cola! Antigamente, uma orgulhosa ditadura comunista recusar-se-ia a ter a água suja do capitalismo. "Podemos, mas não queremos." Agora, querem, mas não podem.

Mas de tudo o que deixou de haver na Venezuela (do papel higiénico a dinheiro para o Podemos), nenhum desaparecimento é tão emblemático como o do passarinho em que Chávez reencarnou e que conversava com Maduro. O passarinho apareceu em Março de 2013 e novamente em Julho de 2014. A partir daí, puf!, nunca mais voltou. Já passaram quase dois anos e esperar-se-ia que, neste momento de aperto, Chávez piasse ao seu povo. Falha de Chávez? Claro que não. É óbvio que algum venezuelano com larica deitou a mão ao pássaro e fez pipis.

Já agora: Escolas - O pai dos povos e os pais do povo

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Percebo a indignação de Mário Nogueira. Como os católicos que se arreliaram com o cartaz dos dois pais de Jesus, os comunistas ofendem-se com o uso blasfemo da imagem de Estaline. Ambos são amados. Um é Deus vivo para os seus seguidores, o outro fundou o cristianismo.

Não é um paralelo sério – para chacinar, Estaline teve mesmo de trabalhar – e é uma questão menor. A pergunta fulcral é: quão más têm de ser as escolas públicas vizinhas das escolas com contractos de associação para os pais aceitarem andar dias a fio vestidos de amarelo, só para protestar?

E mais: Mudar de sexo para depois ficar tudo na mesma

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Enquanto não chega o futuro e passa a haver só um sexo (com o fim do sexismo – pois se somos todos iguais! – e da homofobia – pois se todo o sexo será com um igual! – e o consequente fim do Bloco de Esquerda), o Governo obriga as empresas cotadas em bolsa a terem 20% de mulheres (peço desculpa pelo termo reaccionário) no conselho de administração. Eu, se fosse administrador, com bom salário, bónus chorudo, carro com motorista, férias no iate do dono da empresa, daria o meu lugar a uma mulher. Mudando de sexo, claro. 

Só para terminar: Sexo - Não há fome que não dê em fractura

O Bloco de Esquerda quer que se possa mudar de sexo aos 16 anos. Infelizmente, os adolescentes que mudarem de sexo mais cedo não vão poder celebrar com champanhe: álcool só aos 18. Mas há mais: propõe que o cartão de cidadão deixe de fazer menção ao sexo. Faz sentido. Um chip com informação privada? Claro. Revelar o sexo? Nunca! Quando vir um bebé, em vez de perguntar se é menino ou menina, vou passar a perguntar o menos polémico: "Onde mora essa criança?"

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"A data de nascimento pode ficar. Antes é que era ofensivo perguntar a idade a uma senhora. Agora o ofensivo é perguntar o sexo a uma velha."

O BE acabou com o estigma das profissões de homem e de mulher. A engenharia era masculina, mas Catarina Martins revelou-se a maior especialista em engenharia social.

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