António Sousa Homem

O frio do Inverno e a ordem das coisas

13 de janeiro de 2017 às 00:30
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A minha sobrinha Maria Luísa teme o Inverno como uma espécie de castigo dos Elementos – e detesta-o. As novas gerações (as que espremem a bisnaga da pasta dentífrica pelo meio em vez de o fazerem pela base) habituaram-se a considerar que Portugal – todo o território em volta de Moledo – é uma parte das Caraíbas e ficam surpreendidas quando as temperaturas se aproximam do clima a que em tempos pertencemos: Verões quentes, Invernos relativamente temperados e, aqui e ali, nas montanhas e planaltos, algumas coroas onde a neve poisa como uma lembrança a preto e branco.

Por outro lado, a eleitora esquerdista da família teme também o aquecimento global e, a espaços, transforma-se numa reaccionária que suspira pelas neves de antanho, pelas geadas de Terras de Bouro, pelo gelo nas margens de São Pedro de Arcos, onde viveu o Tio Alberto, o gastrónomo e bibliófilo da tribo. Essas neves e essas geadas não são senão recordações difusas da sua infância e primeira adolescência, quando existiam quatro estações do ano e o seu tio-avô, o velho Doutor Homem, meu pai (que sobreviveu seis meses ao 25 de Abril), considerava o Outono como "a estação elegante", ou seja, a época da meia-estação que lhe permitia exibir o seu guarda-roupa de ‘tweeds’ de Donegal e agasalhos ligeiros das fábricas da Covilhã.

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A democracia, a abundância e o turismo criaram um novo tipo de portugueses, em tudo semelhantes às hordas de reformados da Europa do Norte que assentaram arraiais no Algarve – e passaram a viajar para os trópicos durante o nosso Inverno, a consumir tomate em dezembro e a aceitar mal os condicionalismos da mais conservadora das ciências, a geografia – e, por extensão, a meteorologia. Essa nova geração de portugueses modernos lamenta a canícula do Verão e horroriza-se com o frio morigerado dos Invernos. Para eles, o mundo nunca será perfeito enquanto não aniquilarem "a ordem das coisas", que é uma imposição alheia à sua vontade e não está sujeita a referendo.

Na semana passada, Maria Luísa levou-me a passear até Caminha para aproveitar a passagem do sol pela sua praça aconchegada entre granitos. Eu fui – de sobretudo, uma velharia que conservo do meu alfaiate de Viana, que já fechou portas para dar lugar a uma loja gourmet. Maria Luísa vestiu-se como se fosse Primavera nas encostas do Gerês, cheias de hipericão em flor.

"Está frio", disse ela, depois de termos ido visitar a Dra. Celina, a nossa bibliotecária de Caminha.

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"É Inverno", tranquilizei-a eu.

"Mas está frio."

O mundo tem coisas estranhas. 

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