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António Sousa Homem

Saudades do iodo

Dona Elaine sonda as visitas de família sobre o calendário dos próximos meses.

António Sousa Homem 2 de Maio de 2021 às 00:30
Dois dias de sol, dois dias de chuva, um dia de frio, um dia que relembra a Primavera – em fase de meia-estação (como os fatos de três peças do velho Doutor Homem, meu pai), a varanda de casa é um observatório meteorológico, intranquilo e cheio de preciosismos, voltado para o forte da Ínsua e para as nuvens que coroam o monte de Santa Tecla. As montanhas, lá atrás, são de outro país – e Maio é uma antecâmara da temporada de ouro que se aproxima, com a vinda do calor, das sardinhas e das camisas de manga curta. Fechados na Pátria (situação em que me encontro há algumas confortáveis décadas), voltados para dentro, os portugueses não vão para o Brasil nem para a Tailândia – e hão-de procurar o Verão na vizinhança, como turistas que visitam o quintal e se sentam no pátio das traseiras, de boné e refresco, saudosos dos turistas da verdade.
Por isso, admitindo que o próximo Verão nos vai encontrar de saúde, Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, sonda as visitas de família sobre o calendário dos próximos meses: quer saber quem vem, quem arrisca uma data, quem regressa ao areal. No fundo, ela sabe que estamos com saudades do iodo, esse tempero romântico e médico que justifica a permanência nos areais até mais tarde, mas que tem o seu apogeu de derrubar as neblinas matinais.

E por que motivo temos nós saudades do iodo de Moledo – desse tempo de esplanada, sol e sombra, ‘mazagran’, jantares ruidosos e coroa de espuma sobre as ondas do mar? Temo muito que seja por um motivo importante: por termos saudades de não fazer nada. Ora, "não fazer nada" exige uma disciplina extrema e aplicada, feita de cumprimento ritual de horários (o de estender a toalha ao sol, o de abrir a cadeira à sombra, o de gelar os pés com a primeira rebentação do mar, o de sentir a chegada do torpor do meio-dia, e fico-me por aqui). Sim, além disso existem o ar do mar, a preguiça, o sargaço, os benefícios respiratórios, o ar puro e temperado da tarde – mas o iodo de Moledo é sobretudo um ritual que resulta de estar sentado à beira do mar e cumprir um certo número de tarefas indigentes.

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