Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
1
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

António Sousa Homem

Ao fim do dia, o vento de Moledo

Há um vento de fim da tarde que reconheceria em qualquer lugar do Mundo.

António Sousa Homem 19 de Junho de 2016 às 11:01

A frase resume a vaidade de um velho, enternecido com um lugar onde, retirado e protegido, viveu um terço da sua vida. Os meus antepassados certamente percorreram este litoral – da foz do Neiva a Caminha – e apreciaram-no devidamente. Mas nesses séculos, nesses anos passados, o mar não tinha a grandiloquência que a literatura depois lhe emprestou; era muito mais uma ameaça, um perigo e um cerco.

Foi à beira do mar, numa varanda de madeiras humedecidas pelas correntes do golfo da Biscaia, que o velho Doutor Homem, meu pai, pediu Dona Ester, minha mãe, em casamento. Biarritz era, na época, um refúgio para a velha aristocracia mediana do Porto. Há fotografias desse tempo na casa de Ponte de Lima, onde se guarda a maior parte das memórias da família – do retrato do Senhor Dom Miguel à colecção de discos de ópera do velho Doutor Homem, meu pai, passando pelas mantilhas usadas pela Tia Benedita (a matriarca da família) nas procissões da Semana Santa de Braga. São fotografias que suscitam muita curiosidade aos meus sobrinhos: cavalheiros vestidos a rigor em varandins; senhoras posando em salões de chá que já não existem, vestidas como actrizes de um cinema que nunca existiu; casais em lua de mel, passeando pela avenida marginal; o topo de alguns dos hotéis voltados para o mar, defendendo a velha Aquitânia, fazendo jus ao nome de Pirenéus Atlânticos.

Na semana passada, recordei as minhas próprias fotografias – o que ficou foi, sobretudo, o vento do fim da tarde, um arrastão de melancolia e saudade que não se pode disfarçar. À medida que o fim se aproxima, ou que o seu recorte desenha sombras nas nossas memórias, restam mais nítidos um ou dois amores, dois ou três rostos, quatro ou cinco momentos que explicam, não a nossa vida, mas o que ela podia ter sido.

Dona Ester, minha mãe, sempre soube que eu era um condenado. Só com o tempo me desculpou ter descoberto a finíssima alegria do amor – e tê- -la esquecido e perdido. Ao fim do dia, o vento de Moledo conforta essas memórias. A minha sobrinha Maria Luísa, a esquerdista da família, suspeita que por detrás destas confissões (às vezes, é ela que transcreve para o computador, estas crónicas, que escrevo com a velha caneta Parker), há um romance por escrever. Ele está escrito e vai com o vento de Moledo ao fim da tarde.

António Sousa Homem em certos aspectos
Ver comentários