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António Sousa Homem

Argumentos eficazes contra a política

Hoje, os políticos são vasculhados como talvez mereçam.

António Sousa Homem 22 de Março de 2015 às 00:30

Mencionei há duas semanas que, quando o convidaram para presidente da Câmara, o Tio Alberto partiu para Genebra e alegou que era um devasso. Nesses tempos, os cargos políticos eram uma espécie de honra discreta cheia de trabalhos morigerados. Não como hoje, em que os políticos são vasculhados como talvez mereçam – mas como não merece a espécie humana.

Explica-se isto em três penadas: como não era de esperar-se que do pouco dinheiro circulante sobrasse algum para ser roubado, ou os políticos eram ricos o suficiente para serem honestos (o que não acontecia muitas vezes), ou honestos o bastante para terem vida curta, ou simplesmente pareciam-se com o Calisto Elói dos primeiros capítulos de ‘A Queda de um Anjo’ e não eram deste mundo.

Em qualquer dos casos, nenhuma das razões se ajustava ao carácter do Tio Alberto, além do facto de estarmos em 1964, de viver em celibato e de se ter recusado, como qualquer Homem, a ser "da situação". Estarmos em 1964 já em si era uma dificuldade, sobretudo no Alto Minho, e ainda mais para um solteirão que periodicamente viajava pela Europa ou, em tempos de recolhimento, ia à Galiza com o fito de comer ostras de Ribadeo.

Quanto à "situação", era entendimento tácito de qualquer sobrevivente à concessão de Evoramonte que nós tínhamos sido definitivamente derrotados em 1834, o que implicava pelo menos dois séculos de reclusão.

Tratámos então da salvação do Tio Alberto. Convidado para servir a Pátria, escusou-se com amabilidade. Não bastou. Insistiram. Que a Pátria precisava do seu estímulo e da sua inteligência, coisas que o Tio Alberto não estava disposto a ceder. A solução foi descoberta pelo velho Doutor Homem, meu pai: durante uma tarde de domingo, luminosa e decente, dispôs-se a convencer a Tia Benedita da utilidade de certas pessoas conhecerem dois factos importantes.

Primeiro, o impossível presidente da Câmara não apreciava bandas de música (era mentira e chegou a oferecer um bombardino à filarmónica dos Arcos, na condição de nunca executarem em público composições do Tio Henrique). Segundo: no fim de contas, tratava-se de um celibatário que viajava muito para Vigo e Santiago, o que, para bom entendedor, tinha a ver com a moral pública. Parece que a questão das bandas foi definitiva mas o Tio Alberto, orgulhoso, dizia que o Alto Minho passou a vê-lo como um devasso. Tudo era preferível à política.

crónica de António Sousa Homem em certos aspectos
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