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António Sousa Homem

As magnólias que florescem em Venade

O velho Doutor Homem, meu pai, era pouco melancólico.

António Sousa Homem 28 de Fevereiro de 2016 às 15:00

Sou     pouco     melancólico; a velhice, em vez de me reduzir à serenidade de um crédulo,     carregado     de     melancolia e disponível para catalogar as suas nostalgias, concedeu- -me a graça de me transformar num sátiro – várias vezes o tenho repetido como se se tratasse do parágrafo discreto do catecismo de um velho minhoto. A beleza das coisas que me rodeiam é mais do que um prodígio – trata-se de uma manifestação da sorte que me acompanha ao longo da vida. Quando observo os picos das serras e, sobre todos eles, o de Santa Tecla, voltado para o bravo mar da Galiza, acontece-me pensar na idade.     Depois     de     passados     os noventa, de os ter desperdiçado numa vida onde não coube a preguiça mas apenas a memória de tudo o que pude contemplar e guardar, registo uma espécie de contentamento feliz: cheguei até aqui.

Na semana passada folheei com alegria a nova edição do ‘Dicionário de Eça de Queiroz’, do Arquitecto Campos Matos (que a concluiu agora, aos oitenta e quatro). Chegar até esta idade e ser capaz deste monumento é um sinal de que a humanidade não está perdida – pelo contrário, de que se prolonga como uma bênção e uma prova de estima pela vida, aproveitada gota a gota.

O velho Doutor Homem, meu pai,     era     pouco     melancólico. Deu-se conta de que envelhecia quando, diante da beleza agreste das colinas de Ponte de Lima, (onde passava algumas semanas de Verão, tranquilamente, lendo romances ingleses, tratados     de     genealogia     e     ouvindo discos da sua soprano favorita, Anna Moffo – a sua interpretação da ‘Norma’ era para lá de sublime), passou a preocupar- -se mais com o reumático do que com a organização das estantes. Creio que, a partir desse momento (uma espécie de revelação) deu um destino aos seus papéis, arrumou as gavetas e preparou-se para a Grande Jornada, que ainda tardaria.

Ao contar estas coisas à minha sobrinha Maria Luísa, ela sugere     que     estou     a     cismar.     Dona Elaine pensa o mesmo, e resmunga de cada vez que me apanha mais macambúzio ao pequeno-almoço.     Tranquilizo ambas, desculpando-me com a meteorologia, a convergência dos Elementos que aterrorizam o areal da praia de Moledo, a leve friagem que chega dos pinhais. E, devagar, volto à minha condição de ironista. Pelo sim, pelo não, marco uma consulta com a Dra. Teresa, a minha médica de Venade. Pergunto-lhe como está a floração das suas magnólias.     Ela     entende.     Tal como eu, ela sabe que a eternidade é uma ilusão.

António Sousa Homem em certos aspectos
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