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António Sousa Homem

As melhores histórias são as dos outros

A ideia de que basta ter ‘histórias para contar’ para escrever um romance é grave.

António Sousa Homem 31 de Maio de 2015 às 00:30

A minha sobrinha Maria Luísa rejubilou com a ideia de, retomando a crónica da semana anterior, eu escrever um romance. Periodicamente, ela insiste no propósito e tenta convocar a Dra. Celina, a nossa bibliotecária de Caminha, para aventura tão insensata. Ambas acham que eu tenho "histórias para contar", o que seria a justificação plena para um evento de proporções tão calamitosas como a derrocada da Ínsua ou a descoberta de que o ‘Titanic’, afinal, não naufragou.


A ideia de que basta ter "histórias para contar" para escrever um romance é tão grave como a que manda escrever romances para contar uma história ou, tendo em conta o volume de páginas e a necessidade de contentar vários públicos, várias histórias. Acontece que as minhas "histórias para contar" são pormenores de uma genealogia do Alto Minho; a imodéstia, tal como a preguiça, impedem que vá mais além.

Mas há outro pormenor importante: as histórias verdadeiramente importante são as histórias dos outros. Esse é, aliás, o mal da nossa pobre literatura, segundo me dizem – o romance mais "moderno" da minha mesa de cabeceira é um de Dona Agustina, e o seu cenário é o do meu século, a primeira metade do XX. A falta de curiosidade pelos outros, pela vida dos outros, pelos seus segredos e pelos seus grandes mistérios, traduziu-se numa perda de interesse dos nossos romances, pelo menos até à época em que me dediquei à sua leitura.

A partir de certo momento, os escritores tornaram-se pessoas tão celebradas que deixaram de se importar com os outros – e passaram a colocar-se a si mesmos no centro das "histórias para contar".


O Tio Alberto, bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, onde viveu boa parte da sua vida, teria sido um romancista. Privou com alguns, aliás, mas sem matéria literária de permeio. Consta que o seu grande sucesso literário, aliás, foi um almoço de sardinhas fritas e ovos com chouriço para receber D. Álvaro Cunqueiro e Camilo José Cela.

Cunqueiro, poeta e prosador intenso, glória do Lugo e da sua colina de Mondoñedo, autor de ‘La Cozina Cristiana de Ocidente’, dedicou um soneto à refeição – uma raridade que está entre os papéis do Tio Alberto, uma folha de almaço manchada de conhaque num dos cantos.

"Isso já é um capítulo do romance", lembrou D. Celina, generosa e amante de coisas galegas. Não é. São apenas memórias de um velho preguiçoso demais para as escrever.

António Sousa Homem crónica em certos aspectos romances
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