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António Sousa Homem

Donald Trump em Moledo

"A ideia de que o estropício se assemelha a um candidato conservador é tão absurda como pensar que Dona Elaine vai dedicar-se à ‘cozinha gourmet’".

António Sousa Homem 30 de Outubro de 2016 às 01:45

Era um daqueles serões familiares, mas com alguma cerimónia, depois de o homem de negócios ter decidido, finalmente, apresentar-nos a sua noiva. À falta de uma mesa de sexta-feira no Ancoradouro (porque o bom Alfredo decidiu fechá-lo extemporaneamente, para apreensão de todos nós), o jantar foi aqui em casa – de onde o Outono parece empurrado levemente pela ventania da baía e da foz do Minho, engalanado pela penumbra de Santa Tecla e recebido com serena austeridade pelos pinhais.

A relação da família com a América, ou seja, os Estados Unidos, é a de um pescador fluvial com o deserto: sabe-se que existe, que não tem água e que lá não se pode apanhar trutas. O preconceito não é consciente; para a família, os Estados Unidos existem mas não merecem registo nos nossos arquivos, que se saiba, tirando as viagens das minhas irmãs, sempre cosmopolitas, a Nova Iorque, e creio que à Florida – episódio que nunca mereceu comentários.

O sobrolho do dr. Paulo, no entanto, soergueu-se quando alguém – na televisão – murmurou qualquer coisa sobre Donald Trump e o "eleitorado conservador". A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, fez tenção de mudar de canal (a verdade é que a televisão só é utilizada em casos extremos), ao mesmo tempo que murmurava qualquer coisa sobre Moledo como uma barreira contra a imundície. Ela tem razão. A noiva do dr. Paulo, que não é tímida, disse que uma coisa (Moledo) não tinha nada a ver com a outra (o candidato americano) e calhou-me interpretar o papel da Tia Benedita para concluir que a América tem as suas coisas e que essas coisas ainda não chegam a Ponte de Lima, onde qualquer candidato conservador não usaria aquele penteado. A ideia de que o estropício se assemelha a um candidato conservador é tão absurda como pensar que Dona Elaine vai dedicar-se à ‘cozinha gourmet’.

O velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que ser conservador significava defender e praticar um módico de decência na vida em geral; não é o caso. Olhando em redor, verificando que a beleza dos pinhais continuava intacta e que a suavidade do Outono descia com a noite sobre os hibiscos que ainda resistem, considerámos brevemente que o estropício não tem visto para aterrar em Moledo.

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