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António Sousa Homem

O efeito do referendo escocês em Ponte de Lima

Os Homem e a Escócia

António Sousa Homem 21 de Setembro de 2014 às 00:30

As nossas relações com a Escócia são literárias ou meteorológicas. Menciono "as nossas relações" como se os Homem constituíssem uma espécie de chancelaria e mantivessem laços Estado a Estado – é um resto de vaidade e de mania das grandezas que os leitores benevolentes por certo me perdoarão. Mas como a Escócia não é um Estado e os Homem não são um condado, podemos manter as coisas como estão. Precisamente, um dos sonhos do velho Doutor Homem, meu pai, era o de ter viajado até às ilhas Hébridas, não por causa da música de Mendelssohn, um alemão meridional que ficou encantado com o cenário – mas por causa de Samuel Johnson, o sábio e literato, guardião dos clássicos, que viajou longamente nas suas colinas. Tirando esta intenção nunca cumprida, havia outras referências escocesas na sua vida, a começar por um boné de ‘tweed’ que usava por recreio quando se aproximava o que na altura se designava por "meia-estação"; tinha uma etiqueta onde estava a palavra Edimburgo, que ele gostava de mostrar como garantia da sua pequena extravagância escocesa.

Na verdade, nunca planeou alguma viagem às Ilhas Ocidentais; limitava-se a "ter gostado" de lá ter passeado um dia, sem ter, no entanto, despendido esforço, tempo, pecúlio e imaginação – que provavelmente acabaria desiludida. A imagem que ele tinha das Hébridas era a de uma espécie de parque montanhoso, fustigado pelas intempéries nocturnas, mantido verde pela chuva permanente e relembrado pelos escritores que lhe dedicaram versos ou relatos de viagem, geralmente pouco amáveis. Isto lhe bastava.

Já quanto à Tia Benedita, por seu lado, ela tinha sido informada pelo clero de Ponte de Lima de que não só a Igreja Anglicana tinha um conflito eterno com Roma, mas que a Escócia era ainda mais anti-papista do que o dr. Afonso Costa (este último argumento era decisivo e, no limite, usado sem cerimónia; estrada que o demagogo da República tivesse um dia pisado, era proibida para a família).

Dos vivos, no entanto, só a minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família (ultimamente muito morigerada, vale a pena dizer), se manifestou sobre o referendo escocês. Foi por ela que soube que a independência da Escócia significaria o estabelecimento de um paraíso na Europa, de onde seriam varridos não só os políticos actuais mas também o capitalismo, a monarquia e, creio, o uísque falsificado. Esta perspectiva não me era desagradável, tirando o exílio de Sua Majestade. Ainda imaginei a Tia Benedita preparando o casarão de Ponte de Lima para receber Isabel II, expulsa pelos escoceses.

António Sousa Homem crónica em certos aspectos o efeito do referendo escocês em Ponte de Lima
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