Outro mistério de uma discreta família de Moledo

António Sousa Homem

Outro mistério de uma discreta família de Moledo

Trazemos a inscrição dos derrotados, o que nos ensinou os hábitos da discrição.
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Por António Sousa Homem|26.05.17
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Tal como a personagem de ‘o leopardo’ - o romance de Lampedusa - o velho Doutor Homem, meu pai, assistiu à ruína do seu mundo sem ruir com ele: sobreviveu à República, sobreviveu ao golpe de Maio e ao Estado Novo, sobreviveu ao governo do prof. Marcello Caetano e, finalmente, sobreviveu alguns meses ao 25 de Abril (morreu em Novembro de 1974, depois de ter escrito uma carta a confortar o seu velho amigo dr. Palma Carlos, que durante mês e meio penou como primeiro-ministro). Foi várias vezes tentado pela política, e de todas elas saiu vencedor, nunca sucumbindo aos seus perigos, nem mesmo aos mais benevolentes – quando se menciona o "bem comum" ao tentar arregimentar alguém "para a causa" e seus incómodos.

De todas as ocasiões (não foram poucas), o velho Doutor Homem, meu pai, olhava de frente o retrato do senhor Dom Miguel e voltava a fechar a porta à tentação. A explicação é simples: trazemos nos genes a inscrição dos derrotados, o que nos ensinou os hábitos da discrição, da benevolência e da ironia (ele preferia esta última), de par com uma grande facilidade em encarar o mundo com alguma amável hipocrisia.

Tentei explicar esta ideia tortuosa à minha sobrinha Maria Luísa. Com a idade, as "novas gerações" vão ficando mais interessantes, livrando-se das enfermidades da juventude. ‘O Leopardo’ foi uma das suas leituras e, para ela, o príncipe – representando "o velho mundo" – assemelhava-se aos heróis da máfia que apareceram no cinema como figuras românticas que afrontam o trono, o altar e os seus exércitos, como se fossem herdeiros do Robin dos Bosques. Educada pela história oficial, que trata os derrotados com dureza e obstinação, a minha sobrinha resiste ainda à ideia de que o mundo não está dividido em heróis e facínoras. O século XIX é para ela uma incógnita maior do que a revolução de 1974.

O velho Doutor Homem, meu pai, é para ela uma lembrança vaga a que o tempo e a idade emprestam agora mais graça e fascínio. Entrando na biblioteca, observando as lombadas dos livros, imagino que se interrogue como pôde aquele homem culto, irónico, céptico e cavalheiro (de que ela conheceu vagamente a figura de dândi bem vestido que gostava de oferecer caramelos galegos aos netos) ser um conservador, herdeiro da velha ordem – e não um revolucionário preparado para combater as classes médias, a família e as instituições, ou pelo menos um publicista loquaz. Mistérios, só mistérios.
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