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António Sousa Homem

Questões de protocolo para revolucionários da moda

O velho Doutor Homem, meu pai, tinha muito orgulho nas suas gravatas.

António Sousa Homem 15 de Fevereiro de 2015 às 00:30

O seu gosto foi educado pelos padrões londrinos dos anos anteriores à II Guerra, cujos modelos copiara para que o seu alfaiate civilizasse a clientela e ele pudesse ter os seus ‘tweeds’. E, se nunca lhe passou pela cabeça sair de casa para o escritório sem o adereço da ordem, também é verdade que nunca o impôs a ninguém salvo quando o protocolo o exigia – e não era possível fintá-lo.

Já a minha sobrinha Maria Luísa acredita que o uso de gravata é uma espécie de meridiano a partir do qual serão, doravante e no futuro, julgados os políticos de hoje. Ela acredita – erradamente – que o hábito faz o monge e que a política, a economia e a vida na Europa mudaram "radicalmente" a partir do momento em que os dirigentes gregos passaram a ser fotografados sem gravata. Não há telejornal em que não se apresente um jornalista informando – com imagens a comprová-lo, como se fosse necessário reafirmar que a imprensa não mente – que fulano, nesta ou naquela reunião, continua sem usar gravata. Trata-se de um evidente despropósito.

Desde há muito tempo que questões tão levianas e despropositadas não eram discutidas a um nível, digamos, filosófico. No Verão do ano passado, por exemplo, o Dr. Pereira Coutinho veio visitar-nos a meio de Agosto para deixar em Moledo o seu livro sobre o Conservadorismo (creio que, injustamente, por não se fiar nos Correios). Maria Luísa manifestou alguma perplexidade, porque acredita que os conservadores de todas as latitudes atravessam a época balnear sem dispensar a labita e o plastron, como faunos acossados no meio dos bosques — mas o dr. Pereira Coutinho, aproveitando a canícula, apresentou-se jovialmente de calção, sandálias e barba de dois dias, como um oxoniano no intervalo das regatas, desiludindo a eleitora esquerdista da família.

Ao longo do século (falo do século  passado,  evidentemente) os revolucionários das fotografias  apareciam  sem  gravata  e barbudos,  porque  era  esse  o protocolo, tão rigoroso como o do dr. Salazar, que exigia que o Eng.  Duarte  Pacheco  se  lhe apresentasse de chapéu. E não havia revolucionário que não mostrasse orgulho do seu uniforme, do seu boné ou do seu bigode, tal como o proudhonianos de Eça usavam uma flor vermelha na botoeira. No fim de contas, o actual figurino grego não é muito  diferente  do  de  Cary Grant nos anos da euforia. 

António Sousa Homem em certos aspectos
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