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António Sousa Homem

Regresso ao acampamento de Verão

No tempo em que havia Primavera, a casa de Moledo – cercada de pinhais, mimosas, urze e giestas – mantinha a sua tradição: ser um promontório de onde se via o mar bravo e azul da costa minhota.

António Sousa Homem 12 de Junho de 2016 às 00:30

Daqui até à água fria do Atlântico, separava-nos uma barreira de pinhais e, ao fundo, à direita, a barreira de dunas sobre as quais se podia caminhar a fim de aspirar o grande mito de Moledo – o iodo. Foi o iodo (e a crença na sua existência) que permitiu a fixação de uma minoritária legião de banhistas nestes pequenos areais do Alto Minho. Foi a religião do iodo que permitiu, também, que os seguidores nunca fossem – ao largo do Estio – abalados pelas ‘neblinas matinais’, pelo vento do fim da tarde, pelas temperaturas baixas ou pelo riso escarninho dos que voltam dos trópicos e das Caraíbas (no tempo em que todos gastavam dinheiro com abundância), ou apenas do Algarve (para onde o país parece emigrar durante o tridente de meses de Verão), mencionando o quão ‘impossível’ é a praia de Moledo. O dr. Paulo acha isto uma descrição do país.

A minha sobrinha Maria Luísa viajou pelo  mundo  fora,  tal como as minhas irmãs (eram fãs  de  religiões  orientais,  de ‘spas’ e ‘aventuras espirituais’ vividas noutros hemisférios), dois ou três dos meus vizinhos e uma enorme percentagem de portugueses que se endividaram a fim de passar uma semana num hotel onde tinham de dividir  o  pequeno-almoço com  pessoas  que  provavelmente não queriam conhecer. Com o tempo, Maria Luísa, a esquerdista da família, passou a declarar Moledo como o seu lugar de férias; os outros sobrinhos em breve a seguiram, arrastando namoradas a princípio contrariadas; e a casa de Moledo  –  o  promontório  de onde se via o mar bravo e azul da  costa  minhota  –  passou  a ser ocupado, durante três meses, por gente viva que, ao fim de  um  jantar  na  varanda  das traseiras, já se dava por conquistada para a causa do iodo.

Todos os anos, Dona Elaine (a governanta deste  eremitério) prepara a casa para essa invasão benigna, declarando tratar-se de "um acampamento de Verão". Dona Elaine sempre apreciou essa chegada ruidosa de raparigas e rapazes que vinham prestar homenagem à tradição balnear.  Esse  regresso  ao acampamento  de  Verão  é  um sinal de felicidade.

Dona Ester,  minha  mãe,  que achava que as pessoas bronzeadas  eram  mais  bonitas  e  mais saudáveis, havia de gostar.
António Sousa Homem em certos aspectos
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