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António Sousa Homem

Um território exótico e a preços razoáveis

A senhora nunca conheceu Mary Quant nem a mini-saia, e desconfiou sempre dos Homem que passaram pelos trópicos.

António Sousa Homem 28 de Junho de 2015 às 00:30

A Tia Benedita, matriarca da família e guardiã do retrato do senhor Dom Miguel em Ponte de Lima, achava na ideia de viajar, em si mesma, um certo despropósito. Fora do vale do Lima, da foz do Minho, das montanhas em redor dos Arcos, para lá das dunas de Montedor – o mundo podia ter aspectos possivelmente interessantes, mas a Tia Benedita não via necessidade de o conhecer. Era do lado de lá dessa fronteira invisível (a do Alto Minho) que chegavam o bolchevismo, o ateísmo, a maçonaria e o dr. Afonso Costa. A pobre senhora nunca conheceu Mary Quant nem a mini-saia, e desconfiou sempre do ramo dos Homem que passou pelos trópicos, o que tanto incluía o seu sobrinho Alfredo (que viveu a maior parte da sua vida entre plantações do Pernambuco) como o irmão Henrique, um visionário da engenharia militar que atravessou Angola, construindo pontes e contraindo malária, até regressar aos Arcos com a ideia fixa de compor uma sinfonia sobre os sertões africanos (do que foi dissuadido depois de o velho Doutor Homem, meu pai, ter testemunhado a forma como tratava o oboé).

A matriarca achava que os homens da família viajavam a fim de se entregarem à luxúria. Isso não era verdade. O Tio Alberto viajava por motivos sentimentais ou por gula (ostras de Ribadeo, amêijoas de Rianxo); o velho Doutor Homem, meu pai, por puro dandismo (gostava de passear em Londres como um cavalheiro de visita à terra natal).

Tracei este panorama à minha sobrinha Maria Luísa, depois de ela manifestar algum incómodo com a quantidade de turistas que ocupa a esplanada do Café Central de Caminha (onde fazemos uma peregrinação ocasional) ou acaba de chegar às praias de Moledo e de Âncora. Ela acha que essa vaga de estranhos "descaracteriza" os seus lugares. Em Braga, onde a esquerdista da família passa a semana ajudando os ricos a decorar as suas casas, parece que o cenário é idêntico, coisa que ela atribui à crise e à descoberta de que o país é um território exótico e a preços razoáveis. Tento explicar que, tal como ela viaja para outros países, é natural que o seu país seja também visitado por outros viajantes. O argumento não pega; tal como a Tia Benedita, ela desconfia das razões dos viajantes, que ocupam as mesas dos restaurantes e se expõem ao sol do Minho. Nesta família, a esquerda e a direita sempre se entenderam bem.

António Sousa Homem crónica Mary Quant
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