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António Sousa Homem

Uma família sempre do lado errado

De como uma família conservadora acabou por se dar com todos os seus adversários.

António Sousa Homem 28 de Abril de 2017 às 00:30
Antes de Afonso Costa fazer a sua aparição em La Coruña para visitar o antigo presidente Bernardino Machado, o velho Doutor Homem, meu pai, foi algumas vezes visitar o dr. Cunha Leal, que ali estava também exilado depois da sua zanga com o regime. Era no início dos anos trinta e logo a seguir à proclamação da república em Espanha; essas viagens à Galiza tinham como objectivo satisfazer o apetite do velho Doutor Homem, meu pai, pela magnificência das ostras locais e, acessoriamente, visitar o tribuno. De resto, ele acreditava que, de La Guardia, diante de Caminha e sob a penumbra protectora de Santa Tecla, até Ribadeo, já no cruzamento com as Astúrias, o litoral galego existia fundamentalmente para que se apanhassem ostras, se comessem amêijoas – nenhumas como as de Vilagarcia de Arousa – e houvesse inspiração para alguns poetas que provassem saber a diferença entre um soneto e uma lamentação triste sobre a chuva que cai.

Foi numa dessas visitas ao dr. Cunha Leal que o velho Doutor Homem, meu pai, deu de caras com Afonso Costa – por isso, e durante um certo tempo, interrompeu as viagens para não ter de se cruzar com o demagogo da república, a quem a Tia Benedita, a matriarca miguelista dos Homem, acusava de querer regressar para tomar de assalto as igrejas do Minho e armar a Maçonaria (Afonso Costa morreria em 1937, mas a senhora, que assentara raízes em Ponte de Lima, nunca acreditou estar a salvo). Só voltaria a encontrar o dr. Cunha Leal em Lisboa, um ano antes de terminar a II Guerra, no funeral de Henrique de Paiva Couceiro – que, curiosamente, estivera também exilado em Tui, do outro lado da nossa fronteira, e ao alcance de um par de binóculos da fortaleza de Valença.

A família esteve sempre do lado errado. O meu avô paterno, administrador de quintas do Douro, achava que os ingleses eram a salvação para o vinho do Porto. Ao mesmo tempo que o seu escritório era vandalizado por uma milícia republicana perto dos Clérigos, ele visitava Guerra Junqueiro, com quem melancolicamente privou durante anos, na Quinta da Batoca em Barca d’Alva, como dois adversários contemplando os crepúsculos do Douro. Já a Tia Benedita, para quem a República era uma emanação do Maligno, despachou os enviados de Paiva Couceiro, que lhe vinham pedir dinheiro para a incursão de Vinhais, com o argumento de que se tinham apresentado como maltrapilhos.
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