Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
8
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

António Sousa Homem

Uma genealogia do opróbrio alimentar

Dona Elaine atribui parte da minha idade avançada ao pequeno-almoço de torradas, mel e café de cevada.

António Sousa Homem 8 de Novembro de 2015 às 00:30

Numa das últimas consultas, enquanto renovava o habitual receituário, a dra. Teresa, minha médica de Venade, quis saber há quanto tempo eu mantinha esse regime matinal – não soube responder: provavelmente teriam passado setenta anos, pelo menos, e segundo os padrões de hoje, alimentando-me mal.

Na família seguimos uma vasta tradição de crime e opróbrio. O Tio Alberto, bibliómano e gastrónomo de S. Pedro de Arcos, fazia peregrinações furtivas até ao extremo da Galiza, em Ribadeo, que coroou como a terra natural das melhores ostras (a que acrescentava um desvio para o Lugo, a Leste, onde procurava o seu tradicional ‘lacón cocido con grelos’, ou para Oeste, até Vilagarcía de Arousa, onde acreditava que se comiam as melhores amêijoas das rias) – é célebre o cardápio com que recebeu D. Álvaro Cunqueiro, o poeta e autor de ‘La Cocina Cristiana de Occidente’: ovos com chouriço e sardinhas fritas, que fizeram corar de comoção Camilo José Cela. E de entre os vários atrevimentos da sua biografia consta uma rebuscada e cómica teoria sobre a conversão de São Martinho de Dume (bispo bracarense nascido às margens do Danúbio, no século VI) à já então notável cozinha do Alto Minho, glória do reino Suevo. O velho Doutor Homem, meu pai, atribuía à humidade e à altitude de S. Pedro de Arcos alguns dos desvarios intelectuais do seu irmão, mas agradecia as pequenas embalagens de caviar que ocasionalmente chegavam da terra natal de Svetlana Davydovna, a namorada do Tio Alberto.


De toda a família, só o meu avô, administrador de quintas do Douro, escapava – com moderação – ao pecado da gula. Mesmo a Tia Benedita, a matriarca miguelista de Ponte de Lima, que vigiava com solenidade os nossos baixos padrões morais, sucumbia sempre ao leite-creme ou ao arroz de pato que tinham a assinatura da Tia Henriqueta.


Depois de ouvir esta genealogia culinária (e outros pormenores que escondo dos leitores benevolentes), a dra. Teresa considerou que havia nela "uma certa dimensão literária", o que eu tomei como um elogio a esta heróica luta contra a tentação. A minha sobrinha Maria Luísa, à vista do sorriso cúmplice
do dr. Paulo (cada vez mais deslumbrado com Moledo), ameaçou denunciar-me à minha médica.

António Sousa Homem em certos aspectos
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)