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António Sousa Homem

Vislumbre de Moledo e saudades do Verão

O clima avança e recua. Por detrás das hesitações, espreita a luz do novo Verão.

António Sousa Homem 10 de Março de 2017 às 00:30
A tia benedita gostava do verão mas, como tinha o género humano em muito má conta, atribuía-lhe uma interminável série de pecados e de formas de sucumbir às tentações do reino animal, através da exiguidade das roupas, das sandálias abertas, dos cabelos soltos, dos banhos do rio (ela mal conhecia a praia de Afife e achava estranho que os seus sobrinhos apanhassem sol com o extraordinário fito de se bronzearem) – e do sexo extramuros, ou seja, do pecado propriamente dito.

Penso nisso durante algumas abertas que transformam o céu naquela grande tela de azul forte que é uma das melhores recordações do Verão de Moledo visto através dos pinhais. Nesta temporada de Março, entre neve nas terras altas e aguaceiros episódicos, entre aparições do sol ao crepúsculo e o frio cortante a anteceder a Páscoa (como deve ser), pode dizer-se que o clima avança e recua. Mas, por detrás destas hesitações, espreita a luz do novo Verão que se aproxima como mais uma etapa para a minha longa caminhada: não ano a ano, mas Verão a Verão, como um velho – um Matusalém minhoto, quase contemporâneo do Titanic e da invenção da penicilina – aguardando uma bênção e, simultaneamente, um favor.

À medida que o Inverno soçobra, Dona Elaine – a governanta deste eremitério de Moledo – vai preparando o Verão. Começa por me lembrar que sou preguiçoso, lembrando o estado dos vasos onde os hibiscos esperam para florir de novo; continua, perguntando se há alteração à lista dos convidados para o jantar de aniversário deste mês; prossegue, anunciando que o almoço de Páscoa se aproxima e que Isabelle, "a pequena holandesa", namorada do meu sobrinho Pedro, talvez venha da sua Frísia natal; e conclui, com perversidade, lembrando que a minha sobrinha Maria Luísa já marcou os seus dias de Agosto na praia de Moledo (mesmo que não seja verdade), o que significa que é necessário reservar o toldo de praia.

Esta série de operações desenvolve-se silenciosamente em meu redor, como um ritual que eu faço questão de não entender – e que todos insistem em manter "secreto".
O Dr. Paulo, que voltou a aparecer nos serões de sábado com o argumento de "ter saudades daquela aguardente" (há ainda três garrafas vindas de Monção), juntou-se ao círculo de conspiradores, lembrando que este Verão "temos então de ir a Vigo comer ostras". Ele não imagina o que pode um velho fazer para prolongar a vida. Comer ostras é um belo argumento.
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