Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
2
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Armando Esteves Pereira

Apocalipse na minha terra

O Estado abandonou à sua sorte dezenas de aldeias na Beira.

Armando Esteves Pereira(armandoestevespereira@cmjornal.pt) 17 de Outubro de 2017 às 00:31
A noite do dia 15 de outubro de 2017 é a data mais trágica da história da minha terra.

Uma noite verdadeiramente apocalíptica em que a população e os seus bombeiros conseguiram salvaguardar o mais importante: vidas humanas e a aldeia. Mas quase tudo o resto desapareceu.

Folgosinho era um jardim verde, mesmo sob o estio de agosto. Algumas encostas já tinham sido fustigadas por incêndios, mas a mancha florestal mais importante e os seus soutos tinham resistido sempre.

Nesta noite arderam castanheiros que tinham resistido às invasões francesas há mais de 200 anos. Abandonados à sua sorte, os habitantes e os seus bombeiros, resistiram sem qualquer ajuda externa.

O Estado falhou ao travar de dia os incêndios na Serra da Estrela e à noite deixou dezenas de localidades abandonadas ao seu triste destino. Pior sorte teve uma aldeia vizinha, Melo, terra de Vergílio Ferreira.

As chamas destruíram a Farmácia Central, situada, como sugere o nome, no coração da localidade. Folgosinho, Melo e Gouveia têm centenas de anos de registos históricos, que remontam à reconquista cristã. Têm forais com mais de 800 anos. Resistiram a muito. Nada se compara à destruição deste fogo.

Com tantos mortos, com o mítico Pinhal de Leiria queimado, pode parecer egoísta chorar a minha terra, mas a dor e o desespero dos beirões abandonados merece registo.

Até porque não podem continuar a ser filhos de um Deus menor num Estado falhado.
Armando Esteves Pereira opinião
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)