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Baptista-Bastos

O grito de um Viva!

O período negro da nossa vida presente não é fatal: é passageiro.

Baptista-Bastos 22 de Abril de 2015 às 00:30
As comemorações do 25 de Abril, no sábado, são duas, e definem a divisão do País. As "oficiais", em circuito fechado, vão dar azo a que o dr. Cavaco repita o chorrilho de inocuidades. Sem cravo na lapela, para não ofender os que restam, o cavalheiro, melancólico e soturno, parece deslocar-se para um funeral. Há uma certa verdade no quadro: ele não tem nada a ver com aquilo e, notadamente, está ali a fazer um frete. A Associação 25 de Abril, como o tem feito, vai estar ausente, alguns senhores ostentarão o cravo, toque de ‘A Portuguesa’, e a festa acaba, como se fora o cenotáfio de um morto, porém empalhado.

A festa verdadeira acontece na rua. Fui a todas e a outras, mas agora, as pernas são a recusa do meu querer. Há anos reunia-me com o Henrique Viana, o Eugénio Alves, o Viriato Teles, outros da mesma laia e intenção, na avenida, paralelamente ao elevador da Glória. Gritávamos, dizíamos adeus, numa cerimónia que, de certa forma, nos revertia para os dias gloriosos. Estávamos a envelhecer, como a Revolução, e sacudíamos a hipótese evidente. Todavia, até hoje, a luz dos tempos em que as leis se faziam nas desfiladas ainda bruxuleia. Somos poucos, os de esse tempo, contudo sem perder o sentimento de que tudo ocorre no coração das coisas e no nosso. Coração oco, coração sem rugas é ruim defunto; e nós não o somos ou não o queremos ser.

A palavra revolução mantém, em mim, a sedução dos grandes prestígios. Assisti e fui protagonista de uma, esta, e ninguém me apaga os fulgores do PREC, o regozijo de termos pregado um grande susto a uns grandes tunantes; os excessos de tudo, inclusive de álcool, de confiança e de coragem. Ninguém. Nem mesmo esta miuçalha que trepou ao poder e o usa discricionariamente. ‘Confesso que Vivi’ é o belo título de um belíssimo livro de memórias de Pablo Neruda. Resgato-o para meu uso próprio.

As revoluções empalidecem e desmaiam consoante o desejo daqueles que as determinam. Mas nunca morrem, porque uma resulta de outra, anterior, acaso agora mais astuta e menos ingénua. Nunca morrem. E não contem comigo para deixar de as festejar, mesmo quando surgem aos olhos de muitos, de alguns, como mortiça, esquecida ou decrépita.

O período negro da nossa vida presente não é fatal: é passageiro como todas as crises.
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