Há duas maneiras de perceber que a vida está mais cara. Uma é abrir a carteira. A outra é atravessar a fronteira. Em Portugal, 2026 está a ser um ano daqueles em que tudo sobe ao mesmo tempo e o ordenado fica a olhar. Os números são claros. O petróleo dispara, os combustíveis acompanham, o gás doméstico encarece. E, como sempre, o efeito dominó chega ao resto.
Depois vem o supermercado, o sítio onde a crise não precisa de conferência de imprensa. O cabaz essencial (63 bens) sobe 8,3% até início de maio, com produtos básicos a subirem ainda mais. Tomate, couves, peixe, enfim, quem faz compras não precisa de gráficos: vê.
E, quando a família tenta compensar cortando aqui e ali, aparece a terceira pancada: a casa. A Euribor mexe e a prestação sobe. Um crédito típico leva um agravamento mensal que pode ir a mais de 45 euros, só por efeito da subida das taxas. E não, não é de luxo que falamos. É de um teto.
Até aqui, a narrativa é conhecida. “Choque externo”, “instabilidade”, “inevitável”. Só que há uma parte da história que raramente entra na conversa com a mesma força. Quem é que, no fim, continua a ganhar bem com o caos.
Porque enquanto o país conta moedas, há sectores a fechar anos com resultados que não parecem de aperto. Olhemos para a banca. Não por moralismo, falemos apenas de factos. Em 2024, a CGD chega a cerca de 1, 735 mil milhões de euros de lucro, o BCP cerca de 906 milhões, o Santander perto de 990 milhões e o BPI nos 588 milhões.
E na energia, com oscilações de
ano para ano, o nível continua alto: a Galp apresenta 1,312 mil milhões em 2024 e já tem um sinal do que está a acontecer em 2026: 272 milhões no
1.º trimestre, mais 41% que no período homólogo.
Isto não prova, por si, um golpe. Mas prova uma coisa simples. O aperto não é igual para todos. Quando a conta sobe na bomba, no carrinho e na prestação, há quem consiga manter a margem, por vezes até aumentá-la. O problema é que no povo português há quem não tenha margem nenhuma.
Agora, a comparação que dói mesmo: Espanha.
Na semana de 11 de maio de 2026, com base no Boletim Petrolífero semanal da Comissão Europeia, a diferença na bomba é brutal:
Gasolina 95: Portugal €1,979/L vs Espanha €1,541/L.
Gasóleo: Portugal €1,968/L vs Espanha €1,718/L.
Isto não é uma “promoção”. É uma diferença estrutural no preço final. Contas simples? Na gasolina, são mais 43,8 cêntimos por litro em Portugal; num depósito de 50 litros, dá quase 22 euros a mais. No gasóleo, mais 25 cêntimos por litro; num depósito, mais 12,5 euros. E quem vive perto da fronteira sabe o que isto significa: turismo de abastecimento ao contrário, fuga de consumo, e um sentimento de injustiça difícil de engolir. Pudera.
A pergunta
óbvia é porquê? Há várias respostas e uma delas chama-se política fiscal.
Espanha, perante o choque, avançou com um pacote que inclui descida do IVA em
combustíveis, eletricidade e gás para 10%, entre outras medidas para travar a
escalada.
Ou seja, quando a crise aperta, o
Estado espanhol escolhe aliviar no preço final. Por cá, a sensação repetida é a
de sempre. Ou seja, explica-se muito, decide-se menos e o alívio chega devagar.
E depois há a
grande discussão. Aquela que irrita quem manda e sossega quem paga. Falo de salários
e regulação de preços. Subir salários é repor o básico. Não é um mimo, é
sobrevivência quando o cabaz e a prestação sobem. Mas não. O governo quer é um
pacote laboral que liberaliza dos despedimentos e convida os patrões ao crime.
Regular preços não é um palavrão.
Já se faz em sectores regulados e em momentos excepcionais, noutros países, com
diferentes fórmulas. A resistência vem sempre do mesmo sítio. De quem tem poder
para dizer que não dá, mesmo quando os resultados mostram que afinal dá. Diria
que vem daqueles que mandam até mais do que o nosso triste governo.
O ponto central para um país como o nosso é que mercados concentrados dão poder. E o poder, em crise, tende a proteger lucros e a empurrar custos para baixo. No fundo, para quem não tem alternativa. Se eu não posso escolher não abastecer, não comer e não pagar a casa, então o mercado sabe que eu pago. E paga-se. E faz-se pagar.
No fim, a crise internacional é real. Mas a gestão interna do choque também é. E é aqui que a comparação com Espanha funciona como espelho desconfortável. Não é um país mágico. É um país que, pelo menos na bomba (e via impostos), está a conseguir que o consumidor pague menos. E nós, com salários mais baixos e vida mais cara, continuamos a pagar mais.
O problema não é só económico. É de justiça. E a justiça, quando falha todos os dias, transforma-se numa coisa que nenhum governo gosta. Raiva fria. E isso já se vê nas sondagens.
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