Vinte e quatro polícias. Repito, vinte e quatro polícias. Leu bem? Vinte e quatro polícias detidos. Três operações em dez meses. Duas esquadras no centro de Lisboa. Isto não é ruído. É um alarme. E ensurdecedor.
Segundo a acusação do Ministério Público e a decisão instrutória do Tribunal, há indícios de agressões graves, humilhação e tratamentos cruéis dentro das esquadras do Rato e do Bairro Alto. Pessoas algemadas, sem capacidade de defesa, transformadas em alvo de castigo e gozo. O mais revoltante não é apenas a violência: é a sensação de rotina. Tudo terá sido registado, partilhado em grupos fechados, comentado como quem comenta um golo. E depois, o silêncio. Não um silêncio inocente. É pior. É um silêncio cúmplice.
E repete-se o padrão que envergonha qualquer democracia. As vítimas eram quase sempre as mesmas. Toxicodependentes, sem-abrigo, imigrantes, estrangeiros em situação irregular. Os invisíveis. Os que não têm advogado, não têm rede, não têm credibilidade social. Os que, mesmo quando falam, são tratados como “casos”. Se isto se confirmar, não foi um “descontrolo”. Foi método. Trata-se de escolher quem menos pode reagir e apostar que ninguém vai mexer uma palha.
Perante isto, exigia-se uma reação política simples: condenação clara e zero relativismo. Mas André Ventura fez o que faz sempre que a realidade atrapalha a sua narrativa: barulho. Não barulho contra a tortura. Barulho contra o ministro que investiga, manda deter e promete julgamento. Chamou “anúncios infelizes” ao que, neste caso, é o mínimo decente do Estado: tratar crime como crime, mesmo quando o suspeito usa farda. “Infeliz” é desvalorizar o horror para proteger a clientela. Que mesmo distraída, desta vez tenho dúvidas que engula o discurso odioso de Ventura.
O truque é transparente. Vender responsabilização como “perseguição” e impunidade como “defesa da autoridade”. Ventura sabe que uma fatia da sua base está nas forças de segurança e nas suas famílias. E oferece-lhes cobertura, sem distinguir quem serve o Estado de quem o mancha. Ao fazê-lo, não está a defender a polícia. Está a defender suspeitos. Está a dizer a quem cumpre a lei que vale tanto como quem a pisa. Tenho a certeza de que há polícias a quem isto também mete nojo.
Sim, porque 20 mil agentes não são 24. Mas essa frase não pode servir de cortina. Vinte e quatro não operam no vazio. Operam numa cultura, numa cadeia de comando e num sistema de supervisão que falhou. Operam num “pacto de silêncio” que o próprio ministro Luís Neves reconheceu. Quando a violência circula em vídeos e ninguém trava, o problema já não é só de indivíduos: é de instituição. Na verdade, é de todos nós.
A resposta, por isso, tem de doer onde custa. Punição exemplar se a culpa se provar e reforma séria por dentro. Supervisão real, denúncias protegidas, auditorias, registo e rastreio de atuações em contexto de detenção. Porque se a lei não entra na esquadra, não há autoridade. Há abuso. E esse acaba sempre mal.
E quanto a Ventura, fica o retrato: quando teve de escolher entre dignidade humana e cálculo eleitoral, escolheu o cálculo. Escolheu a barbárie. Em vez de defender os bons polícias, colocou-se ao lado de agressores e violadores. E ainda pediu aplauso. Surpreendeu alguém? Cada vez menos. O nosso Trump dos pequenitos é mesmo isto.
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