Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Boss AC

Carta de um refugiado

Tenho uma identidade e existo. Para ti não tenho nome, sou apenas uma estatística, um número.

Boss AC 20 de Setembro de 2015 às 00:30

Eu existo. Tenho uma identidade e existo. Para ti não tenho nome, sou apenas uma estatística, um número. Venho da Síria, do Iraque, da Palestina, da Somália ou do Sudão. Pouca diferença faz de onde venho porque sou visto como uma ameaça que vem de longe.

Fui obrigado a deixar o meu país. Fujo da guerra, da opressão e da miséria, mas não procuro uma vida melhor. Procuro vida. Porque, de onde venho, agora só existe morte. Tu fazes questão de me lembrar o quão indesejado sou, mas prefiro o teu desdém e a incerteza do que o futuro me reserva à morte certa. Fugir é a minha única alternativa. Seja escondido num camião durante dias a fio ou num bote sobrelotado em pleno Mediterrâneo. Talvez o meu erro seja ter nascido no lugar errado na hora errada.

Eu percebo os teus insultos mesmo sem falar a tua língua. Vês-me como terrorista mas quem perdeu tudo por causa do terror fui eu. Vi-os cometer atrocidades em nome duma religião que não é a minha. Quem os armou? Quem os treinou? Não fui eu. Ou pensas que todos os muçulmanos são terroristas? E se eu não for muçulmano? Já me aceitas? E os atentados extremistas perpetrados por cidadãos nascidos e criados na Europa? E os europeus que engrossam as fileiras do Estado Islâmico?

Aqui sou recebido com gás lacrimogéneo e balas de borracha mas a alternativa seria ficar no meu país e ser assassinado sem me poder defender. Só estou vivo porque não estou morto.

Tens medo que te venha roubar o teu emprego? Mas se te disser que quero trabalhar e cumprir as tuas leis, já me aceitas? Prefiro que admitas a tua xenofobia, a tua intolerância e deixes de justificar o teu medo com teorias da conspiração. Dizem que venho roubar as casas que seriam para os vossos sem-abrigo. O que é que já foi feito por eles? Ou só se lembram deles quando é conveniente? Não te acuso, pergunto.

Talvez eu tenha mais medo de ti do que tu de mim. Fujo duma guerra para vir encontrar outra. Essa guerra de propaganda e de desinformação, onde a opinião pública é manipulada com notícias falsas nos jornais e mentiras partilhadas nas redes sociais. A minha opinião? Não tenho. Tenho fome e tenho medo.

Imagina a tua vida virar um pesadelo do dia para a noite. Imagina a tua casa ser bombardeada enquanto dormes. Imagina a tua família ser assassinada à tua frente e nada poderes fazer. Imagina tudo o que sempre conheceste feito em escombros. Imagina os dias sem comida, sem água potável, sem electricidade, sem nada. Imagina a vida dos teus filhos em perigo. Que farias tu?

Não sou um refugiado, sou um ser humano. Espero que nunca precises da compaixão alheia para sobreviveres. Hoje sou eu, amanhã podes ser tu.

Síria Estado Islâmico Iraque Palestina Somália refugiados
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)