Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
8
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Boss AC

Um dia sem telemóvel

Até podia telefonar duma cabine telefónica. Isso ainda existe?

Boss AC 7 de Junho de 2015 às 00:30

Felizmente, eu não fumo. Mas "telemovo-me" (se o verbo não existia, passou a existir neste preciso momento). Foi preciso passar um dia inteiro sem telemóvel para perceber o quão dependente dele sou. E não sou só eu. Ainda quis justificar a necessidade de tê-lo sempre comigo por razões profissionais mas ainda que possa ser verdade, sou obrigado a admitir que essa é apenas uma parte da verdade. Os telemóveis são os cigarros do séc. XXI.

Ontem saí à pressa de casa e quando percebi que tinha deixado o telefone a recarregar já era tarde demais para voltar atrás. Foi quase como sair à rua nu. Afinal vivi duas décadas sem telemóvel, com certeza que não seria um dia que faria diferença. Não conhecia a rua para onde ia e já a tinha localizada no gps do telefone. Felizmente tenho gps no carro, basta introduzir a morada. Ah pois, lembrei-me: apontei a direcção no telemóvel e estou sem ele.

Tinha uma ideia de onde ficava o lugar e havia de lá chegar. Basta mandar um sms a dizer que vou chegar um pouco atrasado. Acho que, neste caso, um atraso de cinco minutos é aceitável. Ah pois, lembrei-me: estou sem telemóvel.

Até podia ligar duma cabine telefónica mas não fazia ideia de onde encontrar uma. Isso ainda existe? De qualquer forma, ligar sem ter o número seria difícil. Em breve acho que as cabines públicas darão lugar a estações de recarregamento onde a pessoa pode dar carga ao aparelho já quase moribundo. É raro usar telefone fixo. A não ser quando tenho o telemóvel ligado à corrente eléctrica. Aí torna-se fixo.

Antes dos telefones portáteis a pergunta "onde estás?" não fazia sentido. Se ligássemos para alguém e ela atendesse, sabíamos imediatamente onde a pessoa estava. Se me ligaste para casa e eu atendi, onde achas que estou? Os tempos mudam.

Agora num pequeno aparelho que cabe no bolso e vai connosco para todo o lado, temos o equivalente a câmaras de vídeo e fotografia, calculadoras, agendas, relógios, computadores, consolas de jogos, walkman e até televisores. Tudo em menos de 200 gramas. São tão convenientes que chegam a ser inconvenientes. Até os amigos cabem dentro do telemóvel. O irónico é que a mesma tecnologia pensada para nos unir seja a mesma tecnologia que nos separa.

Quantos de nós já estivemos em grupos de amigos que ninguém se fala porque está toda a gente concentrada nos seus telemóveis a pesquisar a internet, a trocar sms ou nas redes sociais? Mexer no telemóvel é o que fazemos quando não temos mais nada para fazer. É uma muleta.


Entretanto já tenho o meu telemóvel de volta e tomei uma decisão. Uma vez por semana, vou tirar um dia para estar sem ele. Mas não pode ser hoje porque tenho uma série de telefonemas para fazer.

Ver comentários