Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
5
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Boss AC

Vacas magras

Disse-me que estava com dores de estômago por causa do sapo que engoliu.

Boss AC 26 de Abril de 2015 às 00:30

Tenho estado envolvido em várias coisas ao mesmo tempo e, ontem, uma dessas actividades implicou bastante esforço físico. Cheguei ao final da noite completamente exausto e com a sensação de ter "alancado como um camelo". Mas, ainda que eu seja mamífero e tenha origens em África, estou longe de ser o dito ruminante. Espero. Também não me recordo de andar com turistas no lombo a passear no deserto.

É o que dá levar as expressões idiomáticas ao pé da letra. Usamos tantas no nosso dia-a-dia e raramente paramos para pensar nas suas origens.

Ao chegar a casa, cruzei-me com um amigo a passear o cão à porta do prédio. Ele estava com cara de quem tem apenas três amigos no Facebook. Pouco amigos, portanto. Perguntei-lhe o que se passava e ele disse-me que a mulher o pôs fora de casa há duas semanas. Lá teve ele de voltar para casa da mãe num camião cheio de suínos. Foi com os porcos. A separação deu-se quando um dia, enquanto tomavam o pequeno-almoço, a mulher dá--lhe a notícia de que está grávida. Ele diz: "Grávida? Um filho custa os olhos da cara! Queres cegar-me, é?!". Foi o princípio do fim. Com os nervos e a chorar, ela deixa cair a chávena ao chão. Chorou sobre leite derramado.

Sem casa nem mulher, só lhe resta o cão e as suas pulgas. Tem uma atrás da orelha. Sempre achou que ia apanhar a mulher com a boca na botija. Ainda a apanhou com a boca numa garrafa de Jameson, mas numa botija, nunca.

Vendeu livros durante anos, foi livreiro. Agora vende panelas, é comerciante. O negócio anda fraquinho e diz ele que as vacas andam magras. Ele trabalha no Cais do Sodré e eu que vivi lá, vinte e tal anos, não me lembro de lá ver nenhuma quinta. Não sei a que vacas se refere. Se lá houver vacas, também deve haver bois e, pela conversa, já devem estar a dormir.

Enquanto falava comigo, ia apertando o cinto. Estranhei vê-lo trazer uma corda ao pescoço. As queixas continuaram: disse-me que estava com dores de estômago por causa do sapo que engoliu e que lhe doíam os pés por causa duma pedra no sapato. "Não sei como descalçar esta bota!" – disse-me. O que há de tão difícil em desapertar os atacadores e tirar uma bota do pé?


As palavras pareciam que lhe saiam pelos cotovelos. Eu só queria ir para casa dormir. Além disso não tinha sabão azul e branco, nem nenhum tanque para lavarmos a roupa suja na rua.


Percebi que ele trazia uma faca na mão. Num golpe à ‘MacGyver’, levei a mão à mochila e tirei um queijo, um bloco de notas e um lápis. Disse-lhe: "Toma este bloco de notas e este lápis, vai ter com a tua mulher e põe os pontos no is. Agora tens a faca e o queijo na mão!".

Peguei numa caneta, fiz-lhe um pontinho na testa e disse: "Agora sim! Agora estás com boa pinta!"
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)