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Carlos Anjos

Noturna no Campo Pequeno

Anunciavam-se os cavaleiros Rui Salvador e João Teles Jr, e o rejoneador espanhol Andy Cartagena.

Carlos Anjos 17 de Junho de 2016 às 16:35

Mais uma noturna no Campo Pequeno, onde se anunciavam os cavaleiros Rui Salvador e João Teles Jr, e o rejoneador espanhol Andy Cartagena, para lidarem um curro de Canas Vigouroux. Para as pegas em solitário, os forcados amadores de Vila Franca de Xira, capitaneados por Ricardo Castelo.

O público não mostrou muito interesse por esta corrida, registando o Campo Pequeno menos de meia casa.

Para dirigir a corrida, o Diretor Manuel Gama.

Para lidar o primeiro touro saiu à Praça Rui Salvador, o cavaleiro mais antigo de alternativa. Aquando da entrada do touro, um belo exemplar Canas Vigouroux com 594 kg, ouviram-se os primeiros aplausos para a apresentação do touro. Rui Salvador iniciou a lide com a cravagem dos dois compridos da ordem. Trocou de montada aquando da mudança para os curtos. E começaram os problemas. Rui Salvador queria impor o seu toureio, entrando de frente para o touro. Nunca o conseguiu. E não conseguiu não por sua culpa ou responsabilidade, mas porque as suas montadas o não conseguem fazer. Rui via-se muito cedo obrigado a abrir o quarteio, o que fazia com que o touro se adiantasse, impedindo a reunião. Algumas passagens em falso e três ferros curtos sem história.

Este bem, o Diretor de corrida, ao não mandar tocar a música, já que nada de relevo se havia passado. Uma lide absolutamente sem história.

Para a 1.ª pega da noite, avançou o cabo Ricardo Castelo. Louve-se a decisão do cabo, que numa corrida difícil, na principal praça do país, numa corrida em que o grupo de encerrava com 6 touros duma ganadaria difícil, e com o grupo em renovação, depois do abandono na época passada de algumas das principais figuras do grupo, entendeu ser ele o primeiro a avançar, para dar o exemplo. E deu. Ricardo Castelo citou com classe, a reunião não foi perfeita, tendo ficado com um dos pintons entre pernas, mas dada a sua enorme experiência, conseguiu corrigir e com a ajuda do grupo fechou-se bem, materializando uma boa pega à 1.ª tentativa.

Inexplicavelmente, o Diretor de Corrida concede a volta ao forcado e ao cavaleiro. Esta decisão é pura e simplesmente inexplicável, e de alguma falta de coerência. Ora se o Diretor de Corrida entendeu que a lide foi fraca, razão pela qual não lhe concedeu música, como pode depois premiá-la com a volta à arena. A música toca quando o toureio faz algo para o merecer e a volta, é o resultado desse merecimento. Dá-se porque se atingiu algo de relevo. Não concedendo o direito a escutar a música, não se percebe a autorização para dar a volta. E são estes critérios, esta dualidade de critérios, que muitas vezes levam público e toureiros a criticar e a faltar ao respeito aos diretores de corrida.

Neste caso, esteve muito bem Rui Salvador, que recusou a volta. Demonstrou enorme dignidade e ética. Ele melhor que ninguém sabia que as coisas não lhe tinham corrido bem, como demonstrou quando saiu da arena no final de lide. Um exemplo para os mais novos, dado por um veterano.

Ricardo Castelo agradeceu nos médios e depois foi obrigado pelo público a dar a volta, que diga-se foi absolutamente merecida.

 

Para o segundo da noite, saiu o espanhol Andy Cartagena. O sorteio enviou-lhe um touro com 560 kg. Uma lide agradável do rejoneador espanhol não se percebendo alguns assobios iniciais. Penso que alguns aficionados têm de perceber de uma vez por todas que vão ver um rejoneador e não um cavaleiro e que existem algumas premissas que distinguem estes dois géneros. Se não gostam, não vão ver. Agora não podem pedir a um rejoneador o mesmo que pedem a um cavaleiro, o mesmo se passando em Espanha, mas a contrário. São conceitos diferentes, apesar de, de alguma forma João Moura os ter tentado misturar. Cartagena muito bem montado, recebeu muito bem o touro, bregando em curto, dobrando-se muito bem com o touro. Cravou dois bons compridos, principalmente o primeiro. Mudou o tércio e mudou de cavalo e com uma lide sempre muito ligada com o touro, assente numa brega de qualidade, demonstrando que é um excelentes equitador, cravou 4 ferros curtos de excelente qualidade, com o senão de dois deles terem ficado algo descaídos.

Trocou novamente de montada e cravou dois excelentes violinos, onde demonstrou excelentes rins, acabando com uma habilidade do cavalo, que é o caminhar pela arena na vertical. Uma habilidade extraordinária do cavalo, do gosto de uns quantos e detestada por outros tantos. De acordo com os cânones do toureio nacional, uma habilidade perfeitamente dispensável, mais ligada a atividades circenses, mas que em Espanha é aplaudida e que ele entendeu fazer. Não gosto, não aplaudo, mas não critico, uma vez que estou a ver um rejoneador.

No cômputo geral, uma lide de boa qualidade de Andy Cartagena nesta sua passagem pelo Campo Pequeno. Conseguiu mexer com o público, mesmo quando os dividiu.

Para a segunda pega da noite, foi escolhido o forcado Francisco Faria. À primeira tentativa o touro entrou com pata, e com um forte derrote tirou o forcado da cara, que pareceu ficar inanimado no chão. Viveram-se alguns momentos de apuro, com os colegas num ato de grande solidariedade a deitarem em cima dele para o proteger. Deu a sensação que foi o toiro com o piton direito que o acordou, e o fez voltar a si. Se se tivesse fechado bem à primeira tentativa, seria a pega da noite. Recuperou fôlego, voltou à cara do touro, citou com garra e agora bem ajudado, fechou-se á segunda tentativa.

Volta merecida para rejoneador e forcado.

A fechar a primeira parte, João Teles Jr., para lidar o terceiro da noite, um touro com 552 kg. João Teles Jr., lidou de forma agradável. Dois ferros compridos de boa nota, e depois nos curtos, cravou uma série de curtos com batida ao piton contrário, ferros esses de boa nota, mas intercalados com algumas passagens em falso e um ferro falhado. Uma lide de boa nota, mas já o vimos fazer muito melhor esta temporada.

Para a terceira pega da noite, o forcado Rui Godinho, hoje um dos melhores forcados de Vila Franca. Tecnicamente perfeito, vistoso, citou com classe, mandou na investida do touro, e efetivou uma excelente pega à primeira tentativa. A melhor pega da noite.Volta merecida para cavaleiro e forcado.

A segunda parte iniciou-se com a segunda atuação de Rui Salvador, que saiu à praça para lidar um touro com 550 kg.Uma lide estranha. Dois compridos perfeitamente banais, parecendo um Rui Salvador sem chama e com o problema de montadas já referido. Mudou o tércio para os curtos e as coisas continuavam a não correr bem. Inexplicavelmente, o Diretor de Corrida manda tocar a música, e ouve-se uma monumental assobiadela á decisão de Manuel Gama. A partir desse momento também Rui Salvador passa a ser constantemente assobiado, acabando por sofrer um toque na montada. Rui começa a desentender-se com a bancada e tudo parece correr para algo de muito feio. Salvador troca novamente de montada, já que devido ao toque sofrido, o segundo cavalo parecia não estar em condições para prosseguir a lide, e eis que do pátio de quadrilhas vem um novo Rui Salvador, ou melhor, vem o velho Rui Salvador dos ferros impossíveis. Rui Salvador dá tudo o que tem, põe a carne toda no assador, cravando três ferros curtos de excelente qualidade, calando positivamente todos os que antes o assobiaram. Fica da memória um ferro cravado em curto, junto à porta dos curros, com o touro em tábuas, e Rui Salvador atacando-o, provocando-lhe a investida, cravando de alto a baixo e rodando entre o touro e as tábuas. Um grande ferro, de um toureiro valente e corajoso. Uma lide em crescente, que começou morna, agravou-se e quando tudo parecia perdido, eis que Rui renasce e acaba em muito bom plano.

Para a pega deste 4.º da ordem, foi o forcado Vasco Pereira. Citou bem, provocou a investida e fechou-se ao primeiro intento com o grupo a ajudar bem.Ordem merecida para cavaleiro e forcado darem a volta à arena.

Para lidar o 5.º da noite, um touro com 594 kg, regressou Andy Cartagena. Nesta segunda passagem pelo Campo Pequeno, Andy Cartagena quis demonstrar que também sabe tourear pelos cânones lusos. Uma atuação mais séria, de frente para os touros, a cravar ao estribo, de cima a baixo, a dobrar-se bem com os touros, enfim, uma atuação para calar os críticos. No entanto, e inexplicavelmente ou não, apesar de uma atitude muito mais séria e muito mas de acordo com as regras vigentes em Portugal, vimos uma atuação que chegou muito menos às bancadas, onde o rejoneador não conseguiu ter o interligação com o público que havia tido na primeira atuação.

Para cravar um último ferro e numa tentativa de alegrar o ambiente, foi buscar um cavalo que se balanceia de fronte do touro, mas foi apenas mais um ferro. Uma lide séria de Andy Cartagena.

Para a pega deste bonito exemplar de Canas Vigouroux, saiu o consagrado forcado Ricardo Patusco. Citou com classe, comunicou muito bem com o touro, falando com ele, tendo sido isso que o ajudou a resolver o problema que o touro lhe colocou. Na investida o touro ensarilhou, mas Ricardo teve a calma de continuar a falar com ele, recuando com classe e reunindo numa fase em que o touro já demonstrava uma investida mais clara, fechando-se á primeira tentativa. Uma pega só possível dada a sua classe e grande experiência, que tornou fácil e pouco espetacular até, algo que se afigurava difícil.

Para fechar a corrida, João Teles Jr., que lidou o último touro da noite, o qual acusou na balança do Campo Pequeno 598 Kg, sendo o mais pesado da corrida.

Talvez o touro mais mansote da corrida. João Teles jr., começou por cravar dois compridos regulares, tendo depois trocado de montada para o 2.º tércio. Trouxe o seu cavalo de confiança, o veterano "Ojeda", mas um cavalo de classe pura, toureio e com o qual "Ginja" está completamente à vontade. Teles jr., sacou touro onde pensávamos não existir. Cinco curtos, todos de excelente qualidade, principalmente os dois últimos, numa lide em que o cavaleiro teve de por tudo. Uma excelente atuação, a melhor da noite, de João Teles Jr, que lidou e cravou muito bem. Registe-se a mudança de João Teles Jr., que começou a rematar as sortes, tornando-as ainda mais espetaculares.

Uma excelente lide.

Para a pega do último da noite, saiu o forcado David Moreira. Bem a citar, recebeu bem o touro, mas devido a um derrote, ficou sozinho na cara do touro, com o grupo a ajudar de imediato. No local, ficou a sensação de que o forcado esteve completamente fora da cara do touro, mas o diretor de corrida deu a pega como consumada. Ficou a dúvida.

Uma corrida noturna regular, sem o salero de outras noites, onde sem dúvida nenhuma merece registo a encerrona dos Forcados de Vila Franca de Xira, com 5 pegas á primeira tentativa e uma à segunda. É verdade que os touros não complicaram a vida ao grupo, mas também é verdade que o grupo fez aquilo que tinha de fazer. Num momento de renovação do grupo, pegar seis touros desta ganadaria no Campo Pequeno, é facto a salientar. Não deram grandes vantagens aos touros, mas o mais importante nesta noite, era resolver de forma positiva os problemas que lhe fossem colocados pelos asteados, e isso foi feito, saindo do Campo Pequeno como os triunfadores da noite e ganhando um grupo e novos e excelentes forcados. 

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