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Carlos Moedas

A teoria da ferradura

Como português e europeu sinto-me cansado destes aproveitamentos fáceis da extrema esquerda e da extrema direita.

Carlos Moedas 24 de Agosto de 2018 às 00:30
Não vale tudo na vida assim como não vale tudo em política. Depois do drama terrível que foi a queda de uma ponte em Génova, o vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini veio imediatamente culpar a União Europeia. Salvini disse aos jornalistas que a culpa da falta de investimento em Itália é das regras orçamentais europeias.

Esta afirmação é errada e perigosa. É errada porque a União Europeia investiu em Itália nos últimos 7 anos mais de 2,5 mil milhões de euros na modernização da ferrovia e das estradas.

Ao qual acrescem 12 mil milhões de euros de investimentos do Fundo Juncker e a luz verde que foi dada a Itália para investir 8,5 mil milhões de euros em infraestrutura. É errada porque a ideia que a União Europeia é a culpada da existência de regras orçamentais é falsa. Um país fora da União Europeia não pode viver sem regras orçamentais, porque simplesmente ninguém lhe emprestaria dinheiro sem ter a garantia que este o possa pagar de volta no futuro. Vejam o caso da Venezuela ou da Argentina.

É perigosa porque galvaniza na sociedade um sentimento de ódio em relação ao projeto europeu que é hoje o apanágio dos populistas de esquerda e de direita. Na semana passada o PCP culpava Bruxelas pela falta de investimento na ferrovia portuguesa. No fundo é exatamente a mesma receita e as mesmas palavras de Salvini. É bom não esquecer que foi Lenine que disse que uma Europa unida seria impossível ou reacionária e que seria sempre construída para sufocar o socialismo.

Em 2002, o cientista político francês Jean-Pierre Faye chamava a esta aproximação entre a extrema esquerda e a extrema direita a teoria da ferradura. A extrema esquerda não está no lado oposto da extrema direita. A extrema direita e a extrema esquerda quase se tocam como os polos opostos de uma ferradura de um cavalo.

Esta teoria é a realidade do Parlamento Europeu onde durante 4 anos vi esta aliança destrutiva e quase irracional entre os dois extremos. Foi o caso quando ambas votaram contra o Plano Juncker, o orçamento da UE ou o prolongamento das sanções à Rússia.

Como português e europeu sinto-me cansado destes aproveitamentos fáceis da extrema esquerda e da extrema direita neste novo mundo de uma ferradura política em que os extremos se tocam cada vez mais com um único objetivo: destruir a Europa.

Primavera de Praga: 50 anos
Lembro-me como se fosse hoje da primeira conversa que tive com a minha colega checa sobre o terror do comunismo. E lembro-me de olhar nos seus olhos quase em lágrimas quando me disse que a primeira memória que tinha da sua infância era um tanque soviético à sua porta e que isso a marcou para a vida.

Contou-me como a população lutou e pagou por essa luta. Contou-me a história de um jovem assassinado porque tocou com uma bandeira checa num tanque soviético. Foi há 50 anos, em 21 de agosto de 1968, que os tanques soviéticos entraram em Praga para destruir o sonho de Alexander Dubcek, que era construir uma sociedade livre, moderna e humana. Durante 6 meses Dubcek liberalizou a economia, a imprensa e a cultura, mas o regime comunista teve medo e destruiu esse sonho invadindo o país.

Em Portugal falamos pouco sobre o terror que foi o comunismo. Penso que de certa forma a nossa história da ditadura levou-nos a ser mais brandos com as ditaduras comunistas. De certa forma e penso que inconscientemente damos uma certa desculpa. Mas nenhuma ditadura tem desculpa. Nenhuma ditadura merece ser branqueada e por isso é importante não esquecer a Primavera de Praga e relembrar o que comunismo não é sinónimo de liberdade.

Kofi Annan: em prol dos mais fracos 
Nobel da Paz em 2001, Annan personificou como ninguém as Nações Unidas. Como europeu que sou, não me posso esquecer da sua coragem ao lidar com o genocídio de Srebrenica (Bósnia) e ter sido dos primeiros defensores do dever de ingerência humanitária. Um homem de estado com letra grande.

Abusos sexuais na igreja
Um relatório americano confirmou a existência de abusos sexuais de crianças na Pensilvânia, com uma dimensão e gravidade nunca vista antes. Perante o silenciar das vítimas e encobrimentos das provas destes casos nos últimos 70 anos, esteve muito bem o Papa Francisco ao denunciar o que qualificou de ‘cultura de morte’.

13,4% 
É a percentagem de trabalho temporário em Portugal em 2017. O Eurostat revelou que Portugal é o terceiro país da UE com maior taxa, atrás da Polónia e da Espanha. Este tipo de emprego tem aumentado na Europa nos últimos 10 anos. Os países com menos trabalho temporário são a Roménia e as três repúblicas bálticas.

Uma Europa que...
Apoia a empresa portuguesa ‘The Navigator’ contra taxas alfandegárias americanas de 37% sobre as importações de pasta de papel. Isso numa altura em que a empresa atravessa um momento difícil após o desaparecimento do grande empresário Pedro Queiroz Pereira.
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