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Carlos Moedas

Discurso certo no sítio certo

João Miguel Tavares Foi corajoso. Muitas das instituições de que falou estavam presentes e são as que não querem mudar.

Carlos Moedas 14 de Junho de 2019 às 00:30
Tenho assistido a muitas cerimónias do 10 de Junho e na maioria das vezes os discursos são algo previsíveis e até mesmo um pouco enfadonhos. Este ano foi diferente. Diria que foi um discurso marcado por uma grande coragem a três níveis.

Primeiro, a coragem do Presidente da República ao convidar alguém que pensa fora da caixa e que fala para além das normas do politicamente correcto. Leio as crónicas do João Miguel Tavares desde sempre. Independentemente de concordar com o que dizem, sinto que exprimem o que muitos pensam mas não têm como transmiti-lo.

Nessa mesma tarde, muitos amigos de Beja contactaram-me a dizer: "Ouviste o JMT? Ele disse o que nós pensamos". Eu estava em Bruxelas e ao ouvi-lo chamei os meus filhos para ouvirem e partilharem aquele momento comigo, porque de certa forma aquela história de alguém que vem da província é também parte da minha história e de tantos outros portugueses.

Segundo, a coragem do João Miguel Tavares ao falar da corrupção instalada e de uma justiça que parece nunca dar resposta, descrevendo como ninguém o efeito deste fenómeno na sociedade civil, que vai deixando de acreditar na meritocracia.

Esta descredibilização é para mim o pior que se pode fazer a uma sociedade. Foi especialmente corajoso porque muitas das instituições de que falou estavam presentes e são, de certa forma, as que não querem mudar e adaptar-se a um futuro mais inclusivo.

Vivi na minha passagem pelo governo essa luta em que todos querem mudar o "quintal dos outros", mas ninguém quer fazer nada no seu "próprio quintal". Em que todos concordamos no que está mal, mas esperamos que sejam os outros a resolver.

Terceiro, a coragem da mensagem política que nos foi transmitida e do programa de acção que dela deverá resultar. A ideia-chave dessa mensagem resume para mim um sentimento preponderante na nossa sociedade: "nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa (para além de pagar impostos)".

Esta é a realidade de muitos que não só já não aguentam mais impostos, como não sentem a conexão entre os impostos que pagam e o valor que recebem dos serviços públicos como cidadãos.

Precisamos de reequilibrar a balança dos impostos e serviços e de levar a sério a ameaça da corrupção e do favoritismo. Acredito que só aqueles que tiverem a coragem de enfrentar estes dois desafios nos poderão levar a acreditar.

Londres agridoce
Esta semana fui ao Reino Unido, certamente pela ultima vez enquanto comissário europeu.

Foi uma visita com sabor agridoce. Depois do referendo, voltar a Londres como comissário, mas também como pessoa que viveu e trabalhou neste país é recordar a tristeza do Brexit.

Estive com cientistas ingleses e de muitos outros países europeus na University College of London, que estão na linha da frente da defesa da UE e que sabem o que vão perder se deixarem de participar nas redes que promovemos e financiamos.

E conheci criadores de startups no Founders Forum que veem a Europa como uma plataforma para o mundo e não se reconhecem num Reino Unido que parece estar a fechar-se cada vez mais.

Mas, ao mesmo tempo, senti uma forte energia para dar a volta à situação. Senti um grande pragmatismo nas pessoas com quem falei, empenhados em preparar um pós-Brexit que limite os danos e que prepare o terreno para uma futura relação entre a UE e o Reino Unido.

Já não serei eu a trabalhar nessa futura relação mas volto de Londres confiante que quando ultrapassarmos esta fase mais caótica, conseguiremos construir uma nova relação na área da ciência e inovação, o que será bom para a Europa e para o Reino Unido.

Marcelino Sambé a brilhar em Londres 
Marcelino Sambé ascendeu ao estrelato como bailarino principal da companhia britânica de dança, o Royal Ballet. De mãe portuguesa, o jovem Marcelino já tem uma carreira com vários prémios nacionais e internacionais. A revista Forbes destacou-o entre os melhores jovens europeus.

New York Times renuncia aos cartoons
Depois da polémica gerada pela publicação do cartoon do desenhador português António, o prestigiado jornal americano anunciou que doravante renuncia a publicar cartoons políticos. É um sinal preocupante quando espaços de liberdade se auto-censuram e quando o humor cede ao politicamente correcto.

73%
… dos europeus já ouviram falar da protecção de dados. Este Eurobarómetro confirma que estamos mais cientes dos nossos direitos digitais. E estar ciente dos seus direitos é condição prévia para os poder exercer. É animador quando assinalamos o primeiro ano de aplicação do Regulamento sobre a Proteção de Dados.

Uma Europa que...te desafia
Estão abertas as inscrições para a 3.ª edição do Summer CEmp – a escola de verão da Comissão Europeia, que junta 40 universitários portugueses com 40 personalidades. As inscrições são limitadas e devem ser feitas no site da Comissão Europeia em Portugal.
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