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Correio da Manhã

Opinião
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João Medeiros

O quarto 101

Bem combinada com escutas telefónicas, reduz a zero o custo da investigação criminal.

João Medeiros 11 de Julho de 2017 às 00:29
A receita não é nova. Aproveita-se a clivagem social, divide-se o mundo em preto e branco e dissemina-se a ideia – aliás, o mais das vezes, correta – de que em largos setores da atividade económica impera o crime organizado.

Seguidamente acrescenta-se uma pitada do conceito que o sistema judiciário tal como está não fornece resposta cabal, que existem alçapões legais pelos quais os poderosos escapam sempre às malhas da justiça e que faltam meios às polícias para combaterem os ladrões. Mistura-se bem, deixa-se a cozinhar em lume brando durante uns anos com algumas entaladelas de tempos a tempos. Já está: surge um remédio! Historicamente tem variado.

Mas foi sempre introduzido por virtuosos: no final dos anos 1960, por exemplo, surgiu a Scuderie Detetive Le Cocq para "aperfeiçoar a moral e servir à coletividade". Dela eram sócios advogados, juízes, políticos e promotores, autointitulados "irmãozinhos". Ficou conhecido por Esquadrão da Morte e horrorizou a sociedade brasileira.

Subjacente à mesma ideia de falta de instrumentos eficazes para combater o crime e da inoperância do sistema judiciário surgiu anos mais tarde o fenómeno da delação premiada, ou acordos de leniência, como lhe preferem chamar para fugir à feiura da palavra Delação.

Agora querem-na importar como método de investigação. É tentador. Bem combinada com as escutas telefónicas, reduz a zero o custo da investigação criminal, dispensa a existência de uma Polícia de investigação e engrossa a cem por cento a eficácia condenatória!

Já agora não esquecer as Cláusulas de produtividade que constam desse tipo de acordos, onde se prevê que a pena do delator diminui em função do número de outras pessoas que forem condenadas. Seguidamente chamem-me. Eu estarei no quarto 101. A ver Teletela!
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