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Correio da Manhã

Opinião
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Victor Bandarra

O beijo do Primeiro de Maio

Cabelos longos e cravo bem juntinho aos peitos, que roçam os vestidos de chita, as três raparigas ocupam a esquina ao lado da estação do Rossio, junto à tasca onde fumegam bifanas na larga frigideira.

Victor Bandarra 1 de Maio de 2016 às 01:45

Galhofeiras, metem-se com a chusma de gente que empanturra de euforia os Restauradores e o Rossio. Os comboios da Linha de Sintra despejam Povo em Lisboa, os cobradores não exigem bilhete, e se o fizessem haviam de ouvir das boas. É o primeiro Primeiro de Maio depois do 25 de Abril de 1974.

Milhões de palavras já descreveram o ambiente que se viveu nesse dia na capital e no país. Mais de um milhão de pessoas pelas ruas alfacinhas. Cravos vermelhos, palavras de ordem, abraços e beijinhos, uma lufada de pura Liberdade, que muitos não acreditavam pudesse acontecer.

No meio da multidão, três soldados fardados, que a farda dava prestígio, são levados às cavalitas por um grupo de cidadãos de punho erguido. À esquina, uma das raparigas, mocetona roliça, avança para um dos rapazes e puxa-o para si. Faz-se uma roda.

Atrevida, a miúda anicha-se ao jovem e pespega-lhe um longo beijo molhado na boca, despudorado "linguado", à frente de toda a gente. Há um ligeiro silêncio, seguido de um bruaá de espanto. Escutam-se algumas palmas. Segundo as leis (escritas) da moral e dos bons costumes então em vigor, beijos lascivos em público davam direito a multa e a uma ida à esquadra. Aliás, postura municipal de 1953 estabelecia pesadas multas a quem fosse apanhado em "poucas-vergonhas" nas matas ou jardins.

Por exemplo, casal apanhado com "aquilo naquilo" levava 50 escudos de multa. Mas o sabor da liberdade tem destas coisas - a miúda, destemida, atraca de novo a boca vermelhusca à do rapaz, agora impante de orgulho. E redobram as palmas. O fotógrafo não estava lá, nem sequer o Gageiro. Uns 25 anos antes, outro fotógrafo, Robert Doisneau, havia captado o célebre ‘Beijo do Hotel de Ville’, em Paris. A foto foi publicada na revista ‘Life’, numa reportagem sobre o suposto romantismo dos franceses, em contraste com a suposta frieza dos norte-americanos.

A foto, belíssima, parece um instantâneo, mas veio a provar-se que o fotógrafo pagou a dois jovens actores para encenarem o beijo. Certo é que é uma das mais famosas e vendidas fotografias de sempre. Em 2005, a modelo da foto, Françoise Bornet, então com 75 anos, leiloou o seu exemplar, com autógrafo de Doisneau, por 155 mil euros.

No Primeiro de Maio lusitano, a rapariga sem nome beija, e volta a beijar, o soldadinho sem nome. Até que uma velha sem nome não resiste a apontar-lhes o dedo. "Já começa a pouca-vergonha!" E logo o chiste de outra velha ao lado. "Beijos era o que tu querias! Mas já vens tarde..." Irrompem gargalhadas e um estrondoso "Viva a Liberdade!"

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