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Victor Bandarra

Portugal tem futuro?

Francisco terá porventura lido os sermões do Padre António Vieira.

Victor Bandarra 29 de Maio de 2016 às 01:45
Qualquer curioso avisado sabe que há perguntas que não se devem fazer. Porquê? Porque denunciam a ignorância de quem pergunta e, sobretudo, a ignorância de quem responde. Qualquer jesuíta de boa cepa sabe que nem as crianças fazem perguntas inocentes. Como não há respostas inocentes.

Com base na dialéctica de São Tomás de Aquino, conta-se a história exemplar da questão posta a velho padre jesuíta: "É verdade que um jesuíta responde sempre com uma pergunta a outra pergunta?" Resposta do sacerdote: "E porque não?" Unir a Fé com a Razão tem sido tarefa árdua para a Companhia de Jesus e, por acréscimo, para Francisco, o Papa jesuíta com tendências franciscanas. Francisco terá porventura lido os sermões do Padre António Vieira. São geniais lições de arte retórica, que fazem corar de vergonha os políticos dos nossos dias, com seus discursos falaciosos.

Vieira definia a matéria, fazia a sua divisão, provava pela razão, apresentava argumentos, refutava os contrários e chegava a uma conclusão. Tudo em nome da Fé e da conversão dos pagãos, o que lhe vale o ranger de dentes de ateus e agnósticos. Mas, hoje, proliferam sobretudo os sofismas e as falácias, a que não resistem juízes ou jornalistas, deputados ou governantes.

Há sempre quem, de má fé, faça perguntas do estilo: "Já deixou de fazer vigarices?" São estas insinuações em forma de pergunta que voltam a estar na moda. E alguns pobres desavisados não resistem a responder "sim" ou "não". Verdade que nos tempos que correm, por prudência ou cobardia, a dialéctica ao jeito jesuítico faz escola nos aspectos mais prosaicos da vida.

Exemplos: "P: Gostas de mim? R: E tu? Gostas de mim?"; "P: Queres fazer amor comigo? R: És sempre assim tão directo?"; "Querida! Nunca me mentiste? R: Por que é que perguntas?" Em questões mais assertivas, há sempre quem responda com ironia a preceito. "P: Como é que enriqueceu? R: Faz sempre perguntas assim tão difíceis?" ou "P: Promete não aumentar os impostos? R: O que é que entende por impostos?"

Conta-se história deliciosa de um jesuíta que tratava de um índio, impiedosamente maltratado pelos espanhóis, algures na América do Sul de Setecentos. O padre tentava mais uma conversão in extremis. "Queres ser salvo e ir para o Céu, ou recusas a salvação e vais para o Inferno?" O índio responde com outra pergunta. "Existem espanhóis no Céu?" O jesuíta condescende. "Sim, certamente!" Ao que o índio suspira. "Para o Inferno, já!" Esta semana, à pergunta "Portugal tem futuro?" de um professor visionário, um miúdo do 4º ano respondeu: "Pode explicar-me o que é Portugal?"
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