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Correio da Manhã

Opinião
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António Sousa Homem

Uma homenagem ao avô Álvaro

O avô Álvaro dedicou a maior parte da sua vida a ocupar-se da família.

António Sousa Homem 29 de Maio de 2016 às 01:45
Em 1894, o meu avô, administrador de quintas no Douro, era ainda jovem – e pôde ver o rei D. Carlos no Porto, por ocasião das comemorações do centenário do Infante D. Henrique. Não foi a glória da família – que, derrotada e sem amargura, tinha desistido da política depois de 1834 – mas pela vida fora evocaria essa tarde de gala e multidão.

O meu avô Álvaro Sousa Homem, que tinha sido colega de carteira do futuro radical republicano (diz-se que por ter nascido em Matosinhos) José Domingues dos Santos, primeiro-ministro em 1924, foi o mais moderado dos homens.

Admirador de António Granjo (com quem se encontrou várias vezes, quando o líder do Partido Liberal passava pelo Porto a caminho de Chaves), visita de Cunha Leal no seu exílio galego (até descobrir, numa das viagens à Corunha, que lá tinha estado o dr. Afonso Costa), por vezes confidente de Guerra Junqueiro na sua Quinta da Batoca em Barca d’Alva – o avô Álvaro dedicou a maior parte da sua vida a ocupar-se da família, reservando para si as viagens pelo Douro, do Porto ao Pinhão e ao Tua, e daí ao Côa e a Barca d’Alva e Freixo de Espada à Cinta.

Era um conversador nato e dedicava-se à epistolografia, uma arte hoje perdida e ignorada, correspondendo-se sobretudo com os donos das quintas, num inglês aperfeiçoado e muito literário (foi leitor de Disraeli e recebeu de um cliente, tão fora de moda como ele, um retrato emoldurado da Rainha Vitória).

Parte dessa correspondência estava a cargo do Tio Henrique, seu filho, o bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos – que considerava esses papéis uma vasta ironia a que só os ingleses podiam desculpar o tom de D. Francisco Manuel de Melo ao escrever a ‘Carta de Guia de Casados’.

Durante a II Guerra, à mesa de jantar da velha casa do Porto, ou em serões no casarão de Ponte de Lima (para onde mandou alguns dos melhores ‘tawny’ do Douro, o vinho da sua eleição), estendia os mapas da Europa e explicava os avanços e recuos dos Aliados e da Alemanha, como se fossem o traçado das vinhas depois da filoxera.

Há dois retratos do avô Álvaro nesta casa de Moledo, o que parece um contra-senso. Nada lhe é tão estranho como Moledo. Nunca gostou de mar. Nunca se comoveu com a novidade de ver crianças bronzeadas. Nunca foi um romântico. Era um homem discreto que cuidou da sua família, vestindo fatos de três peças e usando umas lunetas que lhe prejudicavam a vista. Nunca deu por isso.
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