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Eduardo Cabrita

Barbárie ao jantar

Os assassinos querem derrotar-nos pelo medo e pela recaída na intolerância.

Eduardo Cabrita 19 de Novembro de 2015 às 00:30
A barbárie caiu como uma mancha negra sobre a Cidade-Luz. O homem é a medida de todas as coisas e seria abjeto achar que algumas vidas ceifadas pela violência sem sentido são mais valiosas do que outras.

Desta vez as vítimas não buscavam a glória, não se batiam por causas nem escarneciam de ícones sagrados de qualquer crença. Limitavam-se a ousar jantar ou tomar um copo em locais públicos numa noite de fim de semana, em atrever-se a curtir um concerto ou a circular perto de um estádio onde jogava a seleção francesa.

A sensação de incredulidade resulta exatamente de se perceber no coração da Europa que os alvos somos todos nós, que a fuga de milhões de refugiados não é uma invasão mas sim uma debandada da catástrofe e que a sociedade da tolerância e da inclusão não se pode deixar derrotar pela derrocada das liberdades perante o primado da segurança.

Portugal, dizem-nos todos os registos, é um dos mais pacíficos e seguros países do Mundo. Mas a proximidade afetiva faz-nos pensar que o Coliseu poderia ser o nosso Bataclan, restaurantes populares não faltam, e que a Luz ou Alvalade poderiam ser o nosso Stade de France.

A desestruturação do Iraque, da Síria ou da Líbia abriu caminho a buracos negros em que a noção de Estado desapareceu e em que a venda de petróleo a quem não tem vergonha de o comprar financia o gangsterismo institucionalizado. O Islão é ofendido por uma leitura medieval e as vítimas são sobretudo as meninas nigerianas, as minorias do Médio Oriente e a classe média de todo o Mediterrâneo esventrada por este pesado outono árabe.

Os assassinos querem derrotar-nos pelo medo e pela recaída na intolerância pela diferença e na xenofobia. A resposta tem de aliar a intervenção, com as pessoas e com as armas quando necessário, que garanta a mudança no sentido da estabilidade e da confiança nos Estados falhados que temos à nossa beira com a afirmação com alegria e orgulho dos nossos valores e maneira de viver.

Depois do 13 de Novembro, beber um copo com os amigos, jantar num restaurante magrebino ou sair à noite são atos de resistência tão revolucionários como ir a uma manifestação ou defender a liberdade do blogger saudita Raif Badawi.

O Portugal que se orgulha da dieta mediterrânica e do coração árabe não pode mais olhar para o lado porque, depois de Paris, estamos todos na mesma Gaiola Dourada.
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