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Eduardo Cabrita

Charlie e nós

‘Charlie Hebdo’ sobreviveu a De Gaulle, desancou o capital, enfureceu direita e esquerda.

Eduardo Cabrita 10 de Janeiro de 2015 às 00:30

O terror irrompeu de forma fria e profissional no coração da Europa das liberdades e da tolerância. Depois dos atentados sem critério de Nova Iorque, Madrid, Mumbai ou Casablanca, a morte chegou seletiva, dirigida à irreverência, à sátira e à liberdade de expressão.

A liberdade é sempre o direito a ser diferente e a irritar sem que a opinião seja delito. O ‘Charlie Hebdo’ é um baluarte do espírito iconoclasta do Maio de 68. A arte revolucionária na ponta de um lápis acutilante marcou gerações que entretanto se aburguesaram mas que cresceram com a ternura provocatória dos cartoons do octogenário Wolinski, um dos caídos em combate esta semana.

O ‘Charlie Hebdo’ sobreviveu a De Gaulle, enfureceu direita e esquerda, desancou o capital e nunca considerou as religiões intocáveis.

As teorias da prudência e do respeitinho são a antecâmara do definhamento das liberdades e o direito à diferença europeu é uma força moral sem paralelo na América puritana filha do macartismo, nas democracias musculadas que pululam de Moscovo a Luanda ou nas ditaduras convictas de várias cores.

O fundamentalismo jihadista está para o Islão como a Inquisição para o cristianismo, enquanto perversões das mensagens de Cristo ou de Maomé. A afirmação do primado da liberdade de expressão e a negação da complacência com o terror são a plataforma comum para a salvação de uma Europa que tem muito mais alma e vida para lá do défice, da dívida e dos ratings.

Uma Europa fortaleza ruiria por dentro. Passando a explosão de emoções, não podemos voltar a mergulhar no desinteresse pelas tragédias de Lampedusa, pelos guetos periféricos e pela fermentação dos ódios xenófobos.

O Mediterrâneo volta a ser o centro do nosso destino comum, e a frontalidade contra o medo não pode sacrificar as liberdades. As maiores vítimas da intolerância dos últimos tempos são as múltiplas minorias das tumultuosas origens da nossa civilização, dos coptas e outros cristãos orientais aos curdos, yazidis e outras vítimas da decomposição do mapa herdado da Primeira Guerra Mundial.

Um dos maiores escritores de língua francesa é o argelino Kamel Daoud, que no ultimo livro se inspirou no ‘Estrangeiro’ de Camus. Acaba de ser condenado à morte pelos fundamentalistas. Ele e nós somos Charlie. 

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