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Eduardo Cabrita

Lusoliberalismo

A direita portuguesa tem uma tendência secular de viver do direito natural de governar e se encostar ao Estado.

Eduardo Cabrita 22 de Outubro de 2014 às 00:30

Um dos maiores empresários portugueses, Soares dos Santos, surpreendeu pela clareza e ousadia ao dizer que não gosta de investimento chinês porque não traria nem experiência de gestão nem conhecimento inovador. Por outro lado, falou da necessidade de acordos de longo prazo sobre investimentos e da necessidade de estabilidade fiscal.

Enquanto se discute se as eleições devem ser antecipadas para maio, como defendem todos os parceiros sociais, ou se devem ser no prazo ordinário de setembro/outubro, com os inconvenientes conhecidos na revisão das projeções orçamentais de 2015 e preparação do OE para 2016, convém refletir sobre a tragédia irreversível para o interesse nacional desta traumática experiência de liberalismo de pacotilha.

A prioridade do Governo, logo no verão de 2011, foi desarmar o Estado das golden shares em empresas estratégicas sem nada delinear como sucedâneo. A autorização legislativa para regular a salvaguarda de interesses estratégicos nacionais em processos de privatização foi sendo esquecida enquanto monopólios públicos como a ANA eram convertidos em monopólios privados ou empresas participadas pelo Estado no setor vital da energia eram transferidas para o controlo de empresas públicas estrangeiras. No dramático caso da PT, o sonho de uma multinacional portuguesa foi convertido num epitáfio lúgubre que desperdiça décadas de experiência e de capacidade de inovação.

A direita portuguesa tem uma tendência secular de viver do direito natural de governar e se encostar ao Estado. Do condicionamento industrial salazarista ao Compromisso Portugal dos que rapidamente venderam as empresas ao estrangeiro o cadastro é pouco glorioso e ainda menos liberal.

O atual Governo aliou a retórica liberal a quatro anos de aumentos de impostos e uma estratégia permanente de destruição dos instrumentos públicos mobilizadores da economia. O colapso do BES, esbracejando entre as tábuas de salvação angolana e venezuelana, é o culminar de um calvário de que levaremos anos a recuperar.

O pior protetorado é o que resulta da automutilação pela ideologia de governantes que sem a tutela da troika parecem crianças abandonadas. 

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