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Eduardo Cabrita

Voo picado

O discurso fundamentalista tinha fé absoluta em que tudo o que fosse interesse público era perverso e a gestão privada por natureza virtuosa.

Eduardo Cabrita 17 de Janeiro de 2015 às 00:30

A rapaziada liberal que tanto se tem empenhado em destruir o consenso social construído por forças políticas e parceiros sociais ao longo das últimas décadas está numa desesperada sofreguidão para, nos escassos meses de governação que lhe resta, consolidar decisões fraturantes e irreversíveis que fragilizam o futuro e destroem ativos estratégicos da economia portuguesa.

Depois de entregar a EDP e a REN a empresas públicas chinesas, caso único na Europa, de transformar os correios num monopólio privado, coisa que nem nos Estados Unidos se verifica, de ter patrocinado o desmembramento da CIMPOR, de ter criado o único monopólio privado de gestão de aeroportos em toda a Europa e de se empenhar no desaparecimento da PT com o apoio ativo dos representantes de capitais públicos, o Governo está numa correria desenfreada para privatizar a TAP à beira de eleições perante o silêncio cúmplice de Cavaco Silva.

O discurso fundamentalista tinha fé absoluta em que tudo o que fosse interesse público era perverso e a gestão privada por natureza virtuosa. É certo que os casos paradigmáticos das malfeitorias de Jardim Gonçalves, Ricardo Salgado, João Rendeiro, Oliveira e Costa, Zeinal Bava ou Duarte Lima tornam grotesca a retórica tradicional de subserviência para com a notabilidade do dinheiro e de desprezo pelos portugueses que insistiram em viver acima das suas possibilidades.

O ódio ao papel do interesse público na regulação da economia atinge laivos de paranoia no orgulho de Passos com o isolamento relativamente à leitura de todos os parceiros sociais da situação económica ou no desconforto com a prioridade dada por Juncker ao investimento para salvar a Europa.

A distinção entre trabalhadores da TAP consoante o "bom comportamento" dos sindicatos, dando benesses que vão muito para além do seu mandato, foi um momento sinistro de ofensa ao Estado de Direito da parceria entre o excêntrico Pires de Lima e o fora de lei Sérgio Monteiro que até Passos Coelho foi forçado por pudor a corrigir.

A TAP tem tido mais paz social do que a Iberia, a Air France ou a Lufthansa e é um grande símbolo nacional que não merece ser arrastado no voo picado deste Governo moribundo.

Tudo deve ser feito para travar o que não teria conserto. 

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