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Eduardo Cintra Torres

A difícil relação com a verdade

A avalanche de comunicação dificulta o conhecimento da verdade.

Eduardo Cintra Torres 30 de Outubro de 2016 às 01:45
A comunicação adquiriu tal peso nas sociedades democráticas que a forma e a quantidade de mensagens amiúde se sobrepõem ao próprio conteúdo. Tornou-se fácil mentir e desviar-se dos factos.

A avalanche de comunicação dificulta o conhecimento da verdade. O conceito de verdade é uma preocupação essencial da filosofia e, por extensão, da comunicação. A dificuldade reside em a verdade não coincidir com a realidade, que é independente do homem, pertencendo à ordem do discurso sobre os factos. Havendo uma avalanche discursiva sobre a realidade, como aproximarmo-nos da verdade, que será sempre uma tentativa de fidelidade aos factos?

Um adjunto de António Costa teve de demitir-se por mentir na declaração oficial de habilitações: não tinha a licenciatura; depois, o chefe de gabinete dum secretário de Estado teve de demitir-se porque inventou, não uma, mas duas licenciaturas. Este caso é mais grave, dado que, segundo o Observador, o ministro da Educação (!) estava a par da mentira e não agiu. Aceitou-a. No primeiro caso, jornais como o DN e o JN tentaram salvar a face do mentiroso.

Sexta-feira, o CM revelou que a CGD encomendou um "estudo" a uma empresa para fiscalizar o trabalho dessa mesma empresa (!) por três milhões, isto é, para validar eventuais falsidades que tenham ocorrido. Soube-se depois que a Caixa nem consegue dizer quem encomendou o "estudo". A CGD tornou-se o exemplo do que é a mentira de Estado, de como o discurso do governo sobre a Caixa como o "ai Jesus" do Estado é totalmente contrariado pela sua prática.

O novo presidente fez uma avaliação da Caixa antes de lá chegar, mas diz que não teve acesso a informações, pelo que, se falasse verdade, teria avaliado o banco sem conhecer a sua verdadeira situação. Depois houve a lei que o governo propõe, inconstitucional, destinada apenas a um caso particular para dar condições excepcionais à nova administração. Ontem soube-se que o governo desresponsabiliza os autarcas por dinheiro mal gasto, isto é, se mentirem.

A TVI ofereceu em horário nobre uma entrevista a propósito dum livro — o que provavelmente nunca aconteceu na sua história. A quem? Ao seu protegido Sócrates. A entrevista foi menos sobre o livro do que sobre o tema preferido de Sócrates: ele mesmo.

Extraordinário foi que, sendo noticiado que o livro poderá ter sido escrito por outrem, Judite Sousa não tenha interrogado Sócrates sobre isso. Esta sua demissão total da missão jornalística revela como tentar chegar à verdade é uma luta para quem se decide a empreendê-la. Nem todos os cidadãos o fazem, e os mentirosos contam com isso. A mentira vence.

Ver na RTP 1 o mesmo que nas privadas
À parte os dois noticiários, os programas com maior audiência da RTP 1 são os diários O Preço Certo, The Big Picture e o semanal The Voice. Estes três programas são versões portuguesas de formatos internacionais com origem em produtoras privadas e que passam quase sempre em canais privados noutros países.

Entre os mais vistos, aparecem depois filmes americanos — também conteúdos capitalistas para comércio no circuito privado — e duas telenovelas nacionais de fraca ou fraquíssima qualidade, em repetição. As principais escolhas dos espectadores quando vêem a RTP 1 são, portanto, programas que poderiam estar à vontade, ou melhor, em canais privados e sem que os contribuintes tivessem de os pagar.

Como a informação também está bem fornecida pelos privados, entre generalistas e cabo, a irrelevância do principal canal do Estado acentua-se com estas escolhas de programação, que, afinal, não são escolhas: é a continuação do modelo de sempre.

Pedro Dias, Pedro Semanas
O facto de Pedro Dias — já lhe chamam Pedro Semanas — levar de vencida os perseguidores não significa que há incompetência das autoridades, apenas que ele tem qualidades para continuar o jogo do gato e do rato que escolheu. Há uma série americana, Casos Arquivados, que efabula a resolução de crimes com décadas. Dias ainda vai em semanas.
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