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Eduardo Cintra Torres

As guerras da propaganda

Costa já começou a usar a estratégia guterrista de bombardeamento dos media com desinformações.

Eduardo Cintra Torres 14 de Fevereiro de 2016 às 00:31
Ao fim de 40 anos de democracia parlamentar, pode dizer- -se que os governos PS têm sido os mais activos ou mais ferozes na criação de estruturas de propaganda e desinformação com uma política sistemática de bombardeamento (des)informativo sobre os media. Também os governos PSD de Cavaco a Passos o fizeram, mas sem comparação em grau e gravidade. O governo deste último era criticado por não ter uma política de mentira (se aumentava muito os impostos dizia que aumentava muito os impostos, por exemplo). As acções desajeitadas e brutais de Relvas para controlar o que podia (a RTP) a partir do seu posto foram um episódio que não correspondia à política do próprio Passos e, no final, Relvas saiu.

Quanto aos governos PS, os de Soares anteciparam o que seriam os de Cavaco: controlar os media era, à época, o ‘normal’. Essa fase passou, com a maior consciência e robustez do jornalismo e da cidadania sobre o que é o exercício das liberdades de imprensa e opinião. O governo Guterres estreou nova estratégia: o bombardeamento permanente dos media com informação governamental, acompanhada das respectivas interpretações preferenciais. O fugaz governo Barroso voltou ao modelo Soares-Cavaco, criando a nefasta ERC, e ao objectivo de sempre, controlar a RTP. O de Santana preparava-se para um controlo mais acentuado dos media, mas não teve tempo.

O governo Sócrates foi o mais perigoso de sempre em democracia. Além duma cara e enorme máquina de propaganda, quase criou uma rede institucional mafiosa de controlo dos media, a partir de cima, dos donos, semelhante à dos sistemas corruptos dos oligarcas dos países de Leste. A governação Sócrates, que se ia mantendo no poder para esconder jogadas escuras, hoje às mãos da justiça, conseguiu um efectivo controlo através dos negócios e duma coacção quase fascista sobre media, jornalistas e comentadores.

O governo Costa já começou a usar a estratégia guterrista de bombardeamento dos media com desinformações, informações por vezes desencontradas e suas interpretações preferenciais. Também já começou a pôr as garras na RTP, tentando neutralizar a sua informação independente. E já entrou na via da censura, levando o Twitter a fechar uma conta que o desgastava pelo humor. Todavia, enfrenta dificuldades nesta estratégia socratinista: é um governo minoritário, o que não facilita o autoritarismo; alguns dos media estão mais conscientes da necessidade de servir leitores e espectadores e não o governo, sob risco de os perderem; e apesar do vergonhoso sinal do Twitter, as redes sociais tornaram-se num escape fundamental para a liberdade de expressão.

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Mulder e Scully estão velhos e cínicos 
X-Files’, a série de ‘ficção científica’ de grande êxito entre 1993 e 2002, regressou com os mesmos protagonistas: mais velhos e cínicos, como, afinal, todos nós. Acreditar nas patranhas de então seria hoje complicado. Mulder e Scully, auto-reflexivos, põem em causa as próprias estórias que investigam. Já não se trata de os monstros de cada semana serem ou não reais, mas de as personagens (e os espectadores) acreditarem ou não neles. A imaginação dos indivíduos é tão grande que, se vêem moinhos, como Sancho, são moinhos, e se vêem gigantes, como Quixote, são gigantes. Esta evolução da série acompanha o nosso crescente cinismo no vale de lágrimas encharcado de mensagens contraditórias que é o mundo em que vivemos. Para ser credível, ‘X-Files’ duvida das suas próprias estórias. Acrescentou-lhes sorrisos, e eu somo-lhes suspiros. O mundo pós-moderno da dúvida permanente sobre o que é a verdade está a envelhecer, como Mulder, Scully e eu.

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Novela: o género d’ouro para o público
O êxito de ‘A Única Mulher II’, que este ano já atingiu uma dezena de vezes os 20% de audiência, levou a TVI a apostar numa terceira temporada. Novela com temporadas? É uma novidade que se acomoda à máxima de dar ao maior número o que ele tem preferido ver. Com ‘Coração d’Ouro’ na peugada, confirma a novela como o entretém de eleição.
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