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Eduardo Cintra Torres

Avistamentos dum suspeito em fuga

O orçamento é tema das notícias, mas sem força para subjugar a narrativa de Pedro Dias.

Eduardo Cintra Torres 23 de Outubro de 2016 às 00:30
Depois dos crimes macabros em Aguiar da Beira, o suspeito entrou no jogo do gato e do rato com todas as polícias do País no país rural das habitações dispersas e fechadas e das ruínas de palheiros de granito dissolvendo-se no chão de mato e floresta.

Ando a ler Camilo Castelo Branco – já vão oito romances de seguida. Em todos eles há Pedros Dias, homens acossados por crimes ou por injustas perseguições, cruzando os mesmos caminhos do Norte. Há nesses romances casebres onde eles se acoitam ou há gente amiga ou caridosa que os esconde. Os romances de Camilo são mais movimentados do que as narrativas da televisão nestas últimas semanas, em que, por serem de uma estória real, os avistamentos do suspeito não o avistam. Vê-se tudo menos Pedro Dias. Os únicos avistamentos que são certos são as próprias notícias da televisão, repetindo-se sem fim com os acrescentos possíveis de novas acções policiais, novos testemunhos, opiniões de gente da terra e de quem um dia se cruzou com o suspeito.

O Portugal de Camilo tomou conta das notícias, competindo com o costumeiro Portugal de Eça de Queirós, o da Lisboa elegante e ridícula, superficial e convencida. O Orçamento do Estado, a lei que ano a ano nos esmaga a vida entre Janeiro e Dezembro, foi e é tema das notícias, mas sem força para subjugar a narrativa palpitante e aventurosa centrada em Pedro Dias. Entram-nos em casa as paisagens da Beira Alta e de Trás-os-Montes, aldeias envelhecidas, o medo justificado dos que por ali arrancam o sustento da terra e do pequeno comércio, alheios ao orçamento e alheados por ele.

O "público popular" quer "a notícia desenvolvida e ridiculamente pormenorizada de uma cena de facadas na Rua Suja ou de um caso de adultério na Baixa" e não o artigo dos "escritores consagrados", "por melhor escrito e melhor pensado", escreveu Alberto Bessa sobre o jornalismo em 1904. Defendia que os jornais deveriam fornecer-lhe esses conteúdos que incomodavam as elites ilustradas. No mesmo ano, Augusto de Lacerda defendia o mesmo, pois, "se uma parte do público é adversa" aos assuntos que considera sérios, já "a parte máxima" do que hoje chamamos audiência se interessa pelos detalhes como os do caso de Aguiar da Beira. Ambos os estudiosos do jornalismo português de então consideravam que os leitores tinham direito aos dois tipos de informação.

Tal como não é razoável escolher entre os dois Portugais, que Eça e Camilo espelharam, também não o é escolher entre o jornalismo sobre o orçamento maquinado pelos bisnetos das personagens de Eça e o jornalismo com os bisnetos das personagens de Camilo.
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