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Eduardo Cintra Torres

Costa e Seguro à janela do país: a televisão

Fernando Pessoa escreveu em 1919 que "o voto popular não é uma manifestação de opinião; é uma expressão de sentimento.

Eduardo Cintra Torres 14 de Setembro de 2014 às 00:30

A maioria dos telecomentadores disse sobre os debates Seguro-Costa que esta luta nos media é fratricida e prejudica o PS. Discordo. Primeiro, porque a exposição e o confronto mediáticos dos protagonistas favorecem um melhor conhecimento pelos socialistas e portugueses de quem poderá a vir governá-los. Segundo, porque clarifica o que está em causa. Terceiro, porque os comentadores se demitem do seu papel de provedores da opinião pública, fazendo suas as putativas dores de uma das instituições que exercem o poder sobre (por vezes contra) os cidadãos. Assumem-se como porta-vozes do sistema e não como elucidadores da opinião pública.

Os debates abriram um precedente que espero se torne habitual. É muito melhor para os portugueses, e em especial para os que elegerem o candidato do PS a chefe de governo no dia 28, conhecer melhor os candidatos e o que nos puderem e quiserem dizer, por pouco que digam.

Os debates elucidaram mais sobre o carácter do que sobre políticas? Sim, mas, a meu ver, o carácter de um eventual primeiro-ministro é tão importante como as políticas. O caso Sócrates deveria ter vacinado todos os comentadores sobre este assunto. Fernando Pessoa escreveu em 1919 que "o voto popular não é uma manifestação de opinião; é uma expressão de sentimento. "Os debates, mesmo sem ideias, permitem avaliar o carácter para além do blá-blá. Assim, percebe-se a táctica de Seguro a que Costa chamou "ataques pessoais". Seguro quis transmitir uma versão do seu carácter e uma versão do carácter de Costa. Costa saiu-se mal, a meu ver, nesta questão, porque tinha de facto mais a perder na avaliação pública do seu percurso político e porque numa luta homem a homem, como esta é, o que Seguro fez foram ataques políticos em ligação com o homem seu adversário. Não se pode separar totalmente o político do homem quando se enfrenta um homem político. Por isso, Costa não queria debates.

Discordo doutro argumento da maioria comentatória, o de que Costa é o "challenger", quem desafia o líder instalado. Tecnicamente, é. Mas Seguro é o verdadeiro "challenger", pois diz que Costa representa o "projecto de interesses" (os Sócrates, Almeida Santos e outros instalados no sistema). Na prestação mediática, Costa está na TV como em casa, ou não fosse ele um "quadraturo" há anos; não tem nem faz propostas por ser uma variante do sistema, bastando-lhe comentar, com inegável desenvoltura; em Seguro apresenta-se como o acossado pelo sistema, incluindo o mediático. Vendo os debates neste prisma, é Seguro o desafiador — do sistema.

A diversidade da oferta de TV: uma revolução tranquila

Os últimos números oficiais do consumo de TV em Portugal indicam que 80% dos portugueses assinam serviços pagos, sendo a média de canais nos lares de 60. Só um quinto dos portugueses acede apenas aos quatro canais e meio da TDT, se considerarmos que o canal parlamentar chega a ser meio. Os dados revelam a revolução tranquila que vivemos nas últimas décadas neste domínio. A diversidade da oferta decerto contribui para explicar factos como a fragmentação de opiniões no espaço público, a aversão ao "sistema" e até à dispersão do voto e aumento da abstenção. Mais TV, nomeadamente canais de notícias, favorece o cinismo face à política, mas ganha-se em pluralismo e democracia. Feitas as contas, é melhor assim.

RTP: Salários milionários

Embora sem abalar o modelo sistémico da RTP, a administração da empresa diminuiu bastante os salários milionários de uns quantos jornalistas e apresentadores, alguns sem trabalho que o justifique, outros sem qualidades intrínsecas a uma programação de interesse público. Cada corte de mil euros em honorários estapafúrdios é um posto de trabalho que se mantém na RTP.

PS Sócrates Fernando Pessoa
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