Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
6
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Eduardo Cintra Torres

Destruído o Serviço Público, agora destrói-se a RTP

Chegou-se agora à situação em que não há nem serviço público nem empresa

Eduardo Cintra Torres 5 de Outubro de 2014 às 00:30

O serviço público de TV há muito apodreceu. Apenas sobrevive como chavão de propaganda da clique dirigente da RTP. Agora também a empresa apodrece.

Do último andar dum edifício da sede da RTP foram varridos trabalhadores da casa para acomodar duas empresas externas, que têm a cargo programas comerciais da RTP, como talk shows e uma novela. Os programas são tão fracos como os que substituíram, produzidos na RTP. No último ano, saíram inúmeros trabalhadores competentes. Nos canais internacionais, saiu metade da redacção. À noite, não há ninguém nas rádios da RTP; aos fins-de-semana, não há jornalistas. Há emissões inteiras pré-gravadas. Uma destas noites, a Antena 2 esteve em silêncio mais de uma hora. Não há técnicos de serviço. Há inúmeras falhas técnicas na TV e nas rádios da RTP, mas ficam sem consequências. O programa ‘Verão Total’, produzido por uma das empresas externas instaladas na RTP, teve 10 falhas técnicas entre Junho e Setembro; um directo de Almodôvar foi interrompido aos 20 minutos e substituído horas a fio por uma gravação de Ponte de Sor.

Há serviços extintos sem critério. A destruição dos protocolos de trabalho já se nota nos noticiários principais da RTP. Há dias, o jornal das 13h00 destacava histericamente em "última hora" um facto ocorrido mais de oito horas antes e que já fora amplamente noticiado de manhã. A RTP 2 funciona no Porto com um único empregado: o seu director. O canal é uma inexistência.

A clique dirigente da RTP só pensa em si mesma. "Serviço público" é hoje uma anedota de que se ri nas nossas costas enquanto verte por ele lágrimas de crocodilo em entrevistas e discursos, a empresa costumava ser defendida pela camarilha, pois era uma garantia do seu próprio poder. Chegou-se agora à situação em que não há nem serviço público nem empresa.

O governo, depois da gestão incompetente e trapalhona do caso RTP nos primeiros anos, desinteressou-se e "resolveu" o assunto entregando a empresa à sua sorte – e à sua camarilha – e, qual Pilatos, chutando as maçadas para o Conselho Geral, que agora inicia os seus trabalhos. O confronto deste grupo independente e de académicos com a camarilha que está a destruir os restos do serviço público e da empresa da RTP é inevitável. O futuro não se pode prever, mas havendo já tantas vozes a sublinhar a irrelevância a que a RTP chegou, só uma solução radical poderia instituir um serviço público, pois, com a clique que lá manda, nenhuma outra parece solucionar o que quer que seja. 

RTP Antena 2 Verão Total Almodôvar Ponte de Sor Porto Pilatos
Ver comentários