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Eduardo Cintra Torres

Era uma vez na Figueira da Foz

Uma ou outra cena de tareia faz parte da infância e da juventude da maioria.

Eduardo Cintra Torres 17 de Maio de 2015 às 00:30
Um ano depois de gravado, apareceu no Facebook, depois na televisão, o vídeo de 13 minutos que causou reboliço. Na Figueira da Foz, raparigas agridem um rapaz, perante outros rapazes. O agredido falou na sexta à TVI, percebendo-se, por fim, o contexto que o vídeo não dava: marcara um encontro com uma miúda; surpreendido pelo grupo, não reagiu por serem muitos.

Hoje, como no passado, uma ou outra cena de tareia faz parte da infância e da juventude da maioria. A diferença está no estatuto que crianças e jovens assumiram hoje na ideologia da família e da sociedade. São divinizados, até por serem muito menos do que no passado; são pasteurizados pelas famílias, pelo crescente manto protector do Estado e pelo discurso público. Mas eles escapam, como sempre fizeram, e dá-se um choque: o que passa nas leis, nas escolas e no politicamente correcto inculcado diariamente pelos media não tem correspondência no território dos próprios miúdos, que persistem em práticas antigas e nas suas regras sociais, que incluem liberdades e coacções, longe da vista dos adultos.

Só agora, um ano depois, este caso saiu do território dos miúdos para o palco nacional acompanhado por uma comoção desfasada no tempo: a vida normal prosseguira desde então.

O rapaz agredido também disse à TVI estar arrependido de não ter contado aos pais e que os jovens devem denunciar estes casos. Isto é, percebe-se que o rapaz passou de uma coacção social para outra: primeiro, foi alvo da pressão de grupo e, ao não a denunciar, incorporou-a na sua experiência e na do grupo; mas, um ano depois, perante a divulgação nacional do vídeo, submete-se agora à nova coacção social, a do politicamente correcto consensual na sociedade, induzido pelo discurso público criado nos media e nas redes sociais. Passou do pequeno mundo secreto da juventude, que as famílias, escolas e adultos desconhecem, para o grande palco mediático, que ninguém controla verdadeiramente, a começar por ele, pobre rapaz, mas que origina um terramoto de opiniões e uma comoção generalizada completamente desproporcional ao acontecido algures na Figueira da Foz.

A divulgação nacional transformou o sucedido, um episódio sem grande importância na vida dum grupo de adolescentes, no que ele não foi. As imagens adquirem mais força do que a realidade. As "celebridades" há muito que conhecem os custos da divulgação de imagens imprevistas da sua privacidade. Agora, com um telemóvel filmador em cada bolso, todo o homem vulgar está sujeito à fanfarra mediática.


RTP, 2014: gestão calamitosa
O Parecer do Conselho de Opinião (CO) da RTP sobre as contas de 2014 é arrasador. Revela a irresponsabilidade da gestão da administração Ponte em todos os domínios, incluindo a estratégia de conteúdos comerciais, para obter mais 8,1 milhões em publicidade e em telefonemas de valor acrescentado, que nem assim compensaram o aumento dos gastos com programas (15,6 milhões), quase todos sem qualidade ou iguais aos privados. A RTP acabou 2014 com piores programas, mais 0,7% de gastos e comprometeu o orçamento para os anos seguintes. O Parecer do CO, como sempre acontece nestas coisas, vem depois do mal feito. Entretanto, os contribuintes e espectadores estão a pagar a factura duma gestão calamitosa. 

Séries sim, séries não
As séries de grande produção são hoje o conteúdo de excelência na televisão. Umas têm grande qualidade, mas outras vivem encostadas a um estatuto que não merecem, como ‘Wayward Pines’ (Fox). O argumento da aldeia isolada do mundo copia o filme ‘Truman Show’, mas na série não funciona. A alegoria passou a absurdo.
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