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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Eduardo Cintra Torres

Excessos? Para o ano há mais

Dentro de meses, milhares destes adolescentes saltarão do ritual de finalistas para o ritual das praxes.

Eduardo Cintra Torres 16 de Abril de 2017 às 00:30
Jornais, rádio e televisões deram destaque ao caso dos mil finalistas portugueses num hotel no Sul de Espanha. Fizeram bem. Estas coisas costumam passar despercebidas por serem fenómenos sociais. Por paradoxo, os fenómenos sociais escapam normalmente ao radar da própria sociedade. Vemos a espuma dos dias, os eventos e pseudoeventos, e não vemos o fundo do mar. O problema com aquele hotel permitiu observar o fenómeno.

Os finalistas do secundário, com a ajuda das escolas e famílias, têm esta forma de marcar o fim dum período das suas vidas. Acaba a adolescência, a escola "de sempre". A seguir virá o trabalho ou a universidade, onde a autodisciplina e o livre arbítrio substituem as ordens de cima. As amizades fenecem com a separação. Chegará depois, aparentemente, a maturidade.

As viagens de finalistas são, assim, um pequeno ritual de passagem da sociedade actual; sem sofrimento, como em épocas passadas, e todo centrado em excitação e espectáculo. Pais e filhos separam-se. Lá vão para longe, em grupos enormes. A TVI esteve com uma multidão de 7000 finalistas portugueses em Espanha. Também aí houve excessos, mas a segurança actuou e não tiveram os problemas como os dos mil de Torremolinos. Os excessos fazem parte de qualquer ritual de passagem. Aliás, é essa a ideia: convivem em excesso, livres das autoridades habituais - família, escola, normas sociais constrangedoras - e vivem um período liminal, quer dizer, sem passado nem futuro, rompendo com a vida quotidiana, em festa, em liberdade. Por isso, os pais dos finalistas abençoam o ritual, como aquele pai chateado porque só deram uma bebida alcoólica à rapaziada. No hotel onde esteve a reportagem da TVI, os miúdos tinham bar aberto às 10 da manhã e podiam entrar no quarto com uma garrafa.

Em Torremolinos correu mal porque o hotel tinha deficiências e não manteve os excessos dentro do limite dos excessos destes rituais. Os hotéis do Algarve, como disse alguém do sector à CMTV, já não aceitam viagens de finalistas, pois sabem do que a casa gasta. Se corre mal, também aos dirigentes estudantis e agências de viagens se deve. É um negócio para alguns estudantes e para as agências, que os financiam nas eleições "associativas", os tratam por "dealers" (exploram os colegas) e escolhem sítios rascas sem verificação prévia.

Continuará assim? O fenómeno social manda mais do que pais, agências, hotéis, escola, polícia, os próprios miúdos. Um ritual de passagem só pode ser substituído por outro ritual de passagem. E, dentro de meses, milhares destes adolescentes saltarão do ritual de finalistas para o ritual das praxes.

Jornalistas ajudam nas encenações?
O eurodeputado Paulo Rangel considerou as notícias sobre Centeno "sondado" para o Eurogrupo e o encontro entre o secretário de Estado Mourinho Félix e Dijsselbloem como "factos alternativos" tipo Trump. Tem razão. Refere que a "sondagem" a Centeno, em manchete do ‘Expresso’, foi só feita a portugueses e, presumo, ligados ao governo. Serviu para limpar o ministro das sujeiras no caso CGD.

O caso de Mourinho Félix é espantoso, porque o secretário de Estado substituiu o ministro na cimeira do Eurogrupo em Malta, onde este tinha de estar presente, e porque a máquina de propaganda do governo montou uma cena para se livrar da farronca da exigência em Lisboa da demissão do holandês.

Na cimeira, Félix não só não a exigiu como participou na cena fingida de desagravo, para consumo interno. As imagens tiveram som, contra as normas entre a UE e os media. A pedido de quem? Será que jornalistas portugueses romperam um acordo de cavalheiros a pedido do governo?

TV generalista: para a 3.ª idade? Mal medida?
A idade média dos espectadores dos maiores canais britânicos está entre os 60 e os 62 anos. Por cá, a da RTP 1 e TVI deve andar perto. Abaixo dos 65, vê-se menos ou muda-se para conteúdos na Internet. Alguns serão desses canais, mas não há informação oficial sobre esse consumo. Está a medição das audiências a caminho de ser um "facto alternativo"?
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