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Eduardo Cintra Torres

Finalmente, os Sócrates Papers

Reportagens que a TVI tem apresentado sobre os Panamá Papers revelam falta de meios.

Eduardo Cintra Torres 17 de Abril de 2016 às 00:30
Foi de novo preciso esperar por sábado para que pingasse no ‘Expresso’ e na TVI mais alguma coisa dos Panamá Papers sobre portugueses. Desta vez, houve mais substância. As notícias confirmaram o que sabíamos pelo ‘Correio da Manhã’ a respeito da ligação dos dinheiros do "caso Sócrates" com o BES. Mas pouco mais. As notícias mostram que conhecidos e desconhecidos, ricos ou nem tanto, usaram offshores por diversos motivos, sendo o principal a fuga aos altos impostos no país de origem. Se há transacções para esconder a origem e o destino do dinheiro, também se vê ricos ou nem tanto aproveitando as offshores para fazer o que, sempre ou alguma vez, milhões ambicionam: fugir legalmente a impostos altos.

Houve nalgumas revelações um certo voyeurismo, sobre casos muito antigos e sem comprovada ilegalidade: transacções de pessoas que não são criminosas aproveitando a injustiça fiscal que está na base das offshores. Eu, como leitor, senti-me envergonhado por ter de ler esses casos: pareceu-me excessivo o auto-da-fé. Não os outros, como os que reafirmam o BES como centro da podridão do sistema político-financeiro desde os anos 90.

Também irrita a bazófia do ‘Expresso’ (e do seu programa da SIC N) e da TVI. Quase falam mais de si mesmos e da investigação do que das informações. Apresentam como grande novidade o que já era conhecido. Ignoraram durante anos o trabalho de outros media, como o ‘Sol’ e o ‘CM’, sobre o "caso Sócrates" para agora elevarem ao sétimo céu "a confirmação que faltava", como escreve o ‘Expresso’. Fazem uma vergonhosa associação de Cavaco Silva a pessoas que dele receberam comendas. A TVI, o canal amigo de Sócrates, mostrou-se envergonhada por ter de revelar a investigação sobre o seu caso, a que se obrigou com o ‘Expresso’. No ‘Jornal das 8’ de sábado, mencionou ao de leve as revelações sobre o caso, mas não as desenvolveu no noticiário. Remeteu-as na íntegra para um programa à meia-noite na TVI 24.

Não admira. A TVI foi arrastada para a investigação pelo facto de o seu repórter Rui Araújo fazer parte do Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação. Não foi por vontade própria. Em 2015, quando o consórcio avançou com a histórica investigação, a direcção da TVI mostrou desinteresse pelo assunto. Nota-se. As reportagens que tem apresentado sobre os Panamá Papers revelam falta de meios. Talvez na direcção de informação da TVI já temessem em 2015 o que se viria a descobrir sobre o caso Sócrates. Ter de noticiar a ligação BES-caso Sócrates é uma vergonha para quem é "amigo" de Sócrates e o entrevistou recentemente como se ele fosse o nosso Kim Il-sung.

O cabo a puxar pelos generalistas 
O modelo de programação da TV generalista envelhece a cada dia que passa. Já faltou mais até que os generalistas, mesmo tendo mais audiência do que outros canais e outros media, se tornem socialmente irrelevantes. É razão que sobra para os operadores generalistas se empenharem em canais de cabo para sobreviver. E resulta. Segundo dados fornecidos a meu pedido pela MediaMonitor, os grupos de canais RTP, SIC e TVI alcançaram dois terços da audiência de televisão (65,8% de share acumulado).

A relação entre eles é a mesma: a TVI em primeiro (25,5%), SIC em segundo (22,2%) e RTP em terceiro (18,8%). Os generalistas não só chegam a toda a audiência TV, como permanecem um "ponto de encontro" para a maioria dos portugueses, que prefere programas nacionais. Mas, dada a dispersão da audiência pelas alternativas, vão servindo de "navio-almirante" de uma frota de canais, procurando a interacção entre eles para evitarem o afundamento de um ou de todos. 

O novo diário do governo: o facebook 
Não hão-de os media tradicionais ter a concorrência das redes sociais: depois da saída de João Soares por causa de um post no Facebook, o governo nomeou um novo secretário de Estado da Juventude e Desporto sem anunciar antes que o anterior se demitira — e o demissionário teve de recorrer ao Facebook para informar que saíra na véspera.
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