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Eduardo Cintra Torres

Mona Lisa, Mona Nua, Mona Mito

Milhões vão ao Louvre, mais do que para a ver, para estar com ela, fotografar, não a arte, mas o mito, em selfies de confirmação.

Eduardo Cintra Torres 1 de Outubro de 2017 às 00:30
O passado é resiliente. De vez em quando, o mundo da arte descobre obras perdidas, em especial na arqueologia e na pintura.

E, como tudo o que é humano, tenta-o o exagero, o desejo feito realidade quando não aldrabice na atribuição ou falsificação. A mítica Atlântida já foi "descoberta" algures no fundo dos mares um ror de vezes. O túmulo de Alexandre também.

À conta do mito, Leonardo da Vinci tornou-se uma estrela pop. A descoberta, falsa ou verdadeira, de obras suas faz manchetes.

A sua Mona Lisa ou Gioconda foi roubada por um empregado do Louvre em 1911 — já na era dos media de massas — e recuperada dois anos depois em Itália. Foi o roubo que fez dela manchetes e um mito que transcende a pintura em si. Iconoclastas atacaram-na com ácido ou outras armas, acrescentando o mito.

Milhões vão ao Louvre, mais do que para a ver, para estar com ela, fotografar, não a arte, mas o mito, em selfies de confirmação. A Gioconda sobrevive, continua sorrindo de lado para as multidões que a procuram na Sala VI do Louvre por trás do vidro de segurança antiterrorista que a protege do século XXI.

O CM chamou ontem à primeira página uma nova descoberta: um desenho de Leonardo mostrando uma mulher em meio corpo nu.

Os descobridores do museu disseram que foi feito por um dextro e por um canhoto. Leonardo era canhoto. Feito a meias? Foram mais assertivos quanto à identificação do modelo: é a Mona Lisa! Nua! Que mais queremos no século XXI do que uma "nova" Mona Lisa? E nua, no tempo em que a nudez se espraia nos media e em ridículas "performances artísticas" ou "políticas", entre a mostração insistente e normalizada e um pudor antigo que persiste em incomodar-se com o exibicionismo?

Desconheço se esta "Nua Lisa" — nova, porque a novidade faz parte da espectacularização de tudo — é realmente a Gioconda.

Os especialistas não são definitivos. Têm uma crença, que não é ciência. Olhando a pintura e o "novo" desenho a carvão apenas encontro semelhanças na composição, e nem tanto, pois a posição do corpo é ligeiramente diferente. O cabelo também. O desenho não tem fundo. E, principalmente, o modelo pode não ser o mesmo.

Parece uma idealização. Dizer que se trata dum esboço da Mona Lisa poderá ser um salto (i)lógico mais próximo da valorização comercial da colecção do Museu do que uma afirmação científica.

Mas, entretanto, serve-nos para reconfirmar o poder de fascínio que uma imagem, seja ela qual for, pode adquirir, mobilizando milhões, originando cultos religiosos, artísticos, comerciais, ou tudo isso. Quantos dos milhões iriam ao Louvre se lá não estivesse a Gioconda?

A ver vamos
Última hora!  
A temperatura sobe e desce! 
Tudo se tornou espectáculo. Desde a foto dum vestido que se torna viral porque a marca impele os observadores a "descobrir" de que cor é até ao terrorismo, como o 11 de Setembro.

A concorrência entre os media num ambiente saturado de media leva-os a tornar excitantes coisas e factos comuns. Como o tempo. Se a temperatura desce três graus, isso é manchete.

Não interessa que entre o dia e a noite a temperatura varie dez ou 15 graus. Interessa espectacularizar a descida de três graus na temperatura máxima. Para ilustrar que talvez chova, mostra-se imagens de chuva, como se já chovesse. Para ilustrar que sobe a temperatura, ilustra-se com praias cheias, que não estão.

Imagens passadas para previsões do futuro. Mas o espectáculo é sempre o "bom tempo". Que importa que o país esteja em seca, barragens vazias, a terra ansiando água?

Para os urbanos que fazem e apresentam os noticiários, o que interessa é o que lhes interessa: praia e laró.

Já agora 
Um bruxo, dois bruxos, três bruxos, quatro… 
O bruxo de Fafe. O bruxo da Areosa. O bruxo da Guiné. Eis agora, informa-me o CM, o bruxo de Arnóia, que "recebe clientes (…) num lugar recôndito da pequena freguesia de Celorico de Basto".

A realidade em bruto. O CM é melhor fonte para a sociologia do que tantos trabalhos de colegas sociólogos que impelem as minhas pálpebras a fechar-se.
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