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Eduardo Cintra Torres

O CGI da RTP entrou em funções... demitindo-se delas

A RTP deve explicar se dois programas de Gameiro são ou não publicidade encapotada.

Eduardo Cintra Torres 2 de Novembro de 2014 às 01:13

O novo Conselho Geral Independente (CGI) da RTP, a quem cabe definir a estratégia do ‘serviço público’, começou mal: convidado pela administração, e bem, a pronunciar-se sobre a "nova estrutura organizativa da empresa", o CGI descartou-se, considerando-a um mero acto de gestão, pelo que não deveria pronunciar-se. Errado, tanto mais que a administração apresentou as mudanças como decisões estratégicas. E são, pois têm consequências no fulcro do ‘serviço público’ para o qual o Estado mandatou a RTP: os seus conteúdos. Se o CGI não se pronuncia sobre a estrutura estratégica de produção de conteúdos, quem o fará? Esta omissão do CGI é um mau sinal.

Direito de resposta

O direito de resposta é uma prática notável da democracia nos media: se alguém quer corrigir erros factuais, contra-argumentar com outros factos ou manifestar-se contra maus-tratos nos media, estes são obrigados a publicar a resposta. Infelizmente, a prática está sujeita a abusos. A resposta aqui publicada da jornalista Mafalda Gameiro, da RTP, ao meu artigo ‘Se isto não é publicidade, é o quê? RTP, explique-se’ (CM, 19.10) está imbuída de total falta de rigor e recorre aos métodos de que infundadamente me acusa. Quer o título, quer o meu artigo são explícitos: indico que a RTP deve explicar se dois programas de Gameiro são ou não publicidade encapotada. Os programas recorrem a uma única empresa, fazem-lhe inúmeras referências no texto verbal, oráculos, declarações dos seus profissionais. Apesar de poder recorrer a outras empresas e entidades, Gameiro não o fez. Pedi no artigo que a RTP explicasse o carácter da transacção com aquela empresa, isto é, o tipo de combinação, ajuste ou acordo.

A RTP não esclareceu; e a ‘resposta’ de Gameiro também não. Onde coloquei dúvidas, ela acusa-me de não me pautar "por qualquer código ético ou deontológico reconhecível", baseando-se só na sua opinião e na falta de rigor da sua resposta. Acusa-me de me "acobertar" em comentários anónimos, quando a não identificar fontes é uma prática fulcral do jornalismo (que ela usa na meia hora do programa ‘Confesso’). E ainda diz que o CM "publicou reportagens com oráculos à clínica" e "os respectivos agradecimentos". Ora, as duas reportagens a que Gameiro se refere (CM, 07.03.2010 e 09.01.2011) recorrem a diversas fontes de instituições públicas e privadas portuguesas e estrangeiras — é o que o bom jornalismo faz — e nenhuma inclui oráculos ou agradecimentos a qualquer entidade.

Governo precisa de alargar a TDT a quem queira e possa incluí-la

A TDT poderia ter muito mais canais do que os generalistas e Canal Parlamento. O governo é favorável ao aumento da oferta de canais de acesso livre, mas a decisão está emperrada porque os dois principais privados — SIC e TVI — se opõem. Situação curiosa: os dois privados (e a RTP) beneficiam de um monopólio que o Estado lhes atribuiu ou ofereceu; e agora opõem-se a que o mesmo Estado acabe com o seu monopólio. Receiam, com razão, maior fragmentação das audiências e consequente perda de receitas publicitárias. Mas o povo não tem culpa disso. Os operadores monopolistas terão de se adaptar aos novos tempos e a uma concorrência leal. Se há espaço para mais canais e se há candidatos, cabe ao Estado alargar a TDT.

Mudança estrutural da TV

Dos dos maiores canais de TV dos EUA, a CBS e a HBO, decidiram começar a vender isoladamente pela Internet programas seus, como séries. Trata-se duma importante evolução no carácter do negócio, mas em especial da própria natureza do media televisivo. Se já não interessava a que horas um canal emitia, agora já nem interessa qual o canal: só interessa o conteúdo concreto.

Direito de resposta de Mafalda Gameiro

Na sequência da publicação de um texto subintitulado "direito de resposta" na edição de 2 de novembro de 2014, da autoria de Eduardo Cintra Torres, no qual este colunista profere de novo afirmações susceptíveis de afetar o meu bom-nome e reputação profissional, venho solicitar a publicação do seguinte texto: ECT deu mais uma prova de que sabe pouco do que escreve ao não reconhecer no direito de resposta aquilo que ele efetivamente é: um instrumento para repor a igualdade de armas entre quem escreve nos media e quem, através deles, é alvo de imputações ou insinuações ofensivas. Ao considerar "abusivo" o exercício de um direito de resposta quando ele não diz o que ECT gostaria que dissesse, voltando nos mesmos termos ao assunto que originou a primeira resposta, ECT demonstra ainda que não entendeu o que escrevi no meu direito de resposta de 01.11.2014.

Passo por isso a explicar de outra forma para que compreenda: 1 – Quem escolhe as fontes para as minhas reportagens sou eu; 2 – Quem decide se são idóneas sou eu; 3 – Quem verifica se outras fontes são capazes de corresponder ao trabalho que desejo fazer sou eu; 4 – Quem obedece a um código deontológico sou eu; 5 – Quem, preservando a imagem e a reserva da intimidade dos entrevistados, decide sobre a informação relacionada com o seu percurso clínico sou eu; 6 – Quem atesta a veracidade dos factos sou eu; 7 – Quem decide sobre a identificação das fontes utilizadas sou eu.

Sabe porquê? É assim que se faz. Nunca vi uma grande reportagem sua no ar, admito que não saiba quais são as regras. Se mesmo assim pretende manter a insinuação sobre o "caráter da transacção" na circunstância verificado entre a fonte e a jornalista, que aliás não se tem inibido de explicitamente considerar "comercial", lamento, mas terá que o comprovar.

Mafalda Gameiro, jornalista

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