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Eduardo Cintra Torres

Ó mar salgado! Quanto do teu sal são novelas de Portugal!

‘Mar Salgado’ beneficiade diálogos mais apurados do que osda sequelade ‘Jardins Proibidos’.

Eduardo Cintra Torres 21 de Setembro de 2014 às 00:30

A temporada da TV generalista repete o menu anterior: novelas e concursos de realidade. Na segunda-feira, RTP1, SIC e TVI emitiram 18 episódios de telenovelas, sete na SIC, sete na TVI e quatro na RTP1. Quase 14 horas. Somando-lhes as autopromoções, entrevistas e promoções nos talk shows diurnos e nos noticiários, a presença deste género nestes três canais generalistas e na vida dos seus espectadores é arrebatadora.

É nas telenovelas que a SIC e a TVI mais se empenham. É delas que mais se orgulham. Os argumentos têm muitos desenvolvimentos absurdos, mas procuram temas actuais, como desemprego, falências e emigração. Para conquistar o público no ambiente concorrencial, o primeiro episódio das novelas tende para a espectacularidade. Recorre quase só a exteriores, a montagem é rápida, as acções sucedem-se nos vários núcleos de personagens — os pobres, os ricos, os de classe média —, parecendo mais série do que seriado. A partir do segundo episódio, regressam ao habitual: quase tudo em interiores, muito menos acção e quase só desencontros, incompreensões, conversas inacabadas.

As narrativas centrais repetem o modelo clássico do folhetim, inventado no séc. XIX. Na SIC, que saudades, Deus meu!, voltou com ‘Mar Salgado’ o clássico "gémeos separados à nascença": há quanto tempo os não víamos! A separação de familiares, tema recorrente e irresistível, permite emoções viscerais e o atraso da narrativa por centenas de episódios. Não faltou o clássico "amiga que trai a melhor amiga". O arranque da novela, apesar dos detalhes absurdos, foi movimentado, com muitos exteriores e apresentação das personagens com grande desenvoltura.

‘Mar Salgado’ beneficia de diálogos mais apurados do que os da sequela de ‘Jardins Proibidos’. O primeiro episódio da novela da TVI arrancou em grande, com a inserção de personagens numa manif em que se usaram imagens reais do grande desfile Que se Lixe a Troika de 2012. Todavia, logo caiu numa grande confusão, com a pressa de apresentar dezenas de personagens. No caso dos jovens que enxameiam a novela, a confusão resultou de serem todos parecidos, falarem com o mesmo sotaque lisboeta e logo ali roubarem todos as namoradas ou namorados aos irmãos ou melhores amigos. E não faltam doenças e hospitais, outro clássico da TV.

E assim vamos: novela de mar na RTP1 (‘Água de Mar’), novela de mar na SIC (‘Mar Salgado’) e novela de mar açoriano na TVI (‘Jardins Proibidos’). É todo um oceano do mesmo género ficcional em concorrência, sem alternativa.

Serviço público enviesado: a BBC revela a sua verdadeira missão

Em 1926, o director-geral da BBC, lorde Reith, confessou ao diário uma frase que retrata em geral os operadores públicos de rádio e TV. Os governantes e o sistema, escreveu, "querem poder dizer que não mandam em nós, mas sabem que podem confiar em que nós não seremos realmente imparciais". Assim foi nos momentos-chave e voltou a ser no processo do referendo na Escócia. Um estudo duma universidade provou que a BBC foi parcial a favor do não, quer dizer, a favor do poder sistémico de Londres. O enviesamento agravou-se quando saiu a primeira sondagem indicando que o sim poderia ganhar. Londres entrou em choque e a BBC entrou a matar a favor do sim com a mesma parcialidade de Reith a favor do sistema de poder.

Podem deixar a nudez em paz?

Que grande sururu nas TV com a brincadeira inofensiva dum striptease numa festa universitária animada num local público em Coimbra. Há mulheres e homens nus em estátuas nas ruas, praças e edifícios públicos, na pintura, cinema e TV, mas bastou um vídeo amador para aquela breve animação quase se transformar num crime. Acabem com isso. A nudez já não é tabu. 

RTP1 SIC TVI Mar Salgado Jardins Proibidos BBC Londres
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