Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
8
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Eduardo Cintra Torres

Se isto não é publicidade, é o quê? RTP, explique-se

Referências gráficas e verbaisà empresatotalizamnos dois programas as duas dezenas.

Eduardo Cintra Torres 19 de Outubro de 2014 às 00:30

A RTP estreou em simultâneo dois programas muito semelhantes, a começar pela ressonância religiosa que os seus títulos carregam: ‘Sete Pecados Mortais’ (RTP 1) e ‘Confesso’ (RTP Informação). Cada edição apresenta uma pessoa com comportamentos excessivos ou violentos, ou vítima de abusos, depois de tratamento psicológico prolongado. Contam o caso presencialmente, agora que se libertaram dos fantasmas interiores ou exteriores e reequilibraram a vida comum.

Não é só nos nomes, temática e estrutura que os programas se assemelham: são ambos da autoria e apresentação da jornalista Mafalda Gameiro e ambos apresentam exclusivamente ex-pacientes de uma única clínica terapêutica. Esse centro de tratamento, de nome Villa Ramadas, é conhecido dos espectadores da TVI, pois em 2012-13 ofereceu tratamento a 12 espectadores ou familiares de ‘Você na TV!’ — um por mês — em troca, pelo menos, da exposição mediática da clínica e dos casos.

Os programas da RTP publicitam amplamente a clínica: na RTP 1, a expectável frase "testemunho real" é acrescida da referência publicitária: "testemunho real Villa Ramadas"; na primeira edição foi entrevistada uma "psicóloga Villa Ramadas"; no final, aparece um cartão de "agradecimento" à clínica; no programa da RTP Informação, identifica-se o confessado como "ex-paciente Villa Ramadas"; em todos as confissões está em estúdio o "director terapêutico Villa Ramadas"; no final, indica-se que o programa tem "ajuda à produção" da clínica. As referências gráficas e verbais à empresa médica totalizam nos dois programas as duas dezenas. Mais importante, incluindo as repetições, a RTP está apresentando por semana mais de duas horas de um programa que vários leitores e espectadores nas redes sociais consideraram uma escandalosa publicidade a uma empresa.

De facto, os programas, que se pretendem jornalísticos, podem ser facilmente vistos como publicidade encapotada, ou para usar o eufemismo da moda nos EUA, "publicidade nativa": conteúdos pagos por uma empresa, mas apresentados como jornalísticos, indicando ou não o patrocínio ou pagamento pelo espaço ou tempo no órgão de informação. A RTP indica o "apoio" e "agradece" à clínica, mas não esclarece qual o foi o carácter da transacção com essa empresa.

O operador público está em desnorte total, mas a sociedade e as instituições não lhe podem permitir tudo. Que faz o Provedor do Telespectador? Que faz a ERC, com o seu orçamento anual de 4,2 milhões? Que fazem os estatais Instituto do Consumidor e Direcção-Geral do Consumidor?

Dedos no rabo e sexo oral em sinal aberto: para isso não há segredos

Depois de quatro concorrentes da ‘Casa dos Segredos’ se divertirem numa cama espetando o dedo nos rabos dos outros, um deles largou uma ventosidade na cara dos colegas deitados e um destes disse: "Cheira a lixo!" É mesmo: a ‘Casa dos Segredos’ é lixo. Na noite seguinte, um edredão serviu para permitir passar em sinal aberto uma cena de sexo oral, com a respectiva limpeza da cara pela moça e o conselho ao parceiro para se ir lavar, o que este recusou. Ela chamou-lhe "Porco!" É mesmo: a ‘Casa dos Segredos’ é uma porcaria. A javardice atrai muita audiência, mas tem vindo a perdê-la, talvez porque se nota que o monte de lixo é demasiado construído pela produção. Terão os responsáveis da TVI orgulho nesta porcaria?

Vá lá, abram os vossos arquivos

O jornalismo tem por obrigação recordar o passado de políticos e outros protagonistas. São exemplos os casos Sócrates, Tecnoforma e do secretário de Estado que agora se demitiu. Mas proponho aos media e seus comentadores que apliquem o mesmo exercício a si mesmos: vá lá, voltem a publicar os indecorosos elogios que andaram anos a fazer a Ricardo Salgado ou Zeinal Bava. 

---------------

Direito de Resposta

Eduardo Cintra Torres acusou-me recentemente neste jornal de fazer publicidade a uma clínica nos programas ‘Sete Pecados Mortais’ (RTP 1) e ‘Confesso’ (RTP Informação), da minha autoria. ECT começa por bramir o suposto teor "publicitário" de menções gráficas à clínica e depois, acobertado pela opinião convenientemente anónima de "leitores e espectadores nas redes sociais", a "escandalosa publicidade a uma empresa". Como se não bastasse, prosseguindo com as insinuações difamatórias, ECT acusa-me especificamente de praticar a chamada publicidade nativa: "conteúdos pagos por uma empresa mas apresentados como jornalísticos (...)". E afirma: "a RTP indica o "apoio" e agradece à clínica, mas não esclarece qual foi o caráter da transação [itálico meu] com essa empresa".

ECT consegue, naquele texto, a façanha de simultaneamente lançar graves imputações sobre o meu comportamento ético-deontológico sem apresentar uma única prova do que sustenta; exercitar a sua corrente obsessão – atacar o serviço público de televisão, em cuja estrutura ocupo um cargo com responsabilidades editoriais; e de desinformar os leitores do CM sobre o relacionamento entre fontes e jornalistas.

Em primeiro lugar, se ECT não sabe, porque não pauta a sua escrita por qualquer código ético ou deontológico reconhecível, a identificação das fontes é um dever elementar dos jornalistas. E para isso é necessário referir o nome e as responsabilidades profissionais de quem facultou os contactos e providencia o enquadramento médico sem os quais, aliás, a realização dos programas não teria sido possível. Como se manifestaria o pudor seletivo de ECT se os casos apresentados tivessem sido acompanhados, e como tal identificados, por outras clínicas ou hospitais privados de maior dimensão e reconhecimento público, como a CUF ou os Lusíadas?

Em segundo lugar, tal como sucede em qualquer noticiário em que as ajudas à produção são identificadas no final sob a forma de cartão (para assinalar o contributo ao nível do vestuário do apresentador, p. ex), o agradecimento à participação da clínica no final do programa destina-se precisamente a esclarecer o espectador e não a ocultar algum tipo de "transação" como maldosamente ECT insinua.

Em terceiro lugar, se ECT não está a par das práticas nesta matéria, fique-se pelo grupo ao qual pertence o jornal onde escreve, grupo que respeito, pois irá encontrar reportagens com oráculos à clínica agora em causa – Villa Ramadas, bem como os respetivos agradecimentos.

Mafalda Gameiro, Jornalista

Ver comentários