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Eduardo Cintra Torres

Telecomentário=Estado+‘sistema’

Há quatro ex-ministros das Finanças a comentar, bem como outros ex-governantes.

Eduardo Cintra Torres 29 de Outubro de 2017 às 00:30
Os telecomentadores políticos são uma das categorias mais influentes na política nacional, se não individualmente, o que é raro, mas em grupo. E são muitos: mais de sessenta.

O Laboratório de Ciências da Comunicação do ISCTE-IUL tem analisado os comentadores num trabalho para o European Journalism Observatory (https://pt.ejo.ch).

Acrescentei à sua lista os comentadores da CMTV e os de chegada recente aos ecrãs e procurei outro ângulo de análise: qual a profissão ou o modo de vida dos comentadores? Privado, Estado ou ambos?

E como se situam, devido a essa situação profissional e às suas opiniões, em relação ao que chamamos ‘o sistema’, isto é, a nebulosa que pretende a utilização ou apropriação do aparelho de Estado para benefício pessoal ou de grupo? Esta última variável é subjectiva, minha, mas é um ponto de partida para a análise de conjunto do comentariado político na TV.

Também pode considerar-se subjectivo que eu considerasse a Fundação Gulbenkian como fazendo parte do Estado, mas julgo não estar errado ao ver nela uma instituição privada majestática com uma fortíssima relação com o Estado, o que se repercute no posicionamento dos seus protagonistas.

Dum total de 63 comentadores, 48% trabalha em instituições do Estado. Juntando 6% com funções no sector público e privado, chega-se a mais de metade (54%). No sector privado trabalha 46% do total.

Todavia, entre estes há oito advogados (12%), sendo que, com a excepção de um, são sócios ou associados de poderosos escritórios, todos envolvidos em negócios com o Estado.

Este predomínio de negociadores entre o Estado e grandes empresas ‘sistémicas’ é uma das aberrações do comentariado político em Portugal. Servem de exemplo Lobo Xavier, Marques Mendes, Morais Sarmento, Júdice e Vitorino.

Resumindo, dois terços (65%) dos comentadores políticos trabalham no Estado, para o Estado ou estão envolvidos em negócios com o Estado. Acresce que podem estar no privado e exercer importantes funções estatais.

Três conselheiros de Estado, dos quais dois advogados, são comentadores: mais uma aberração do comentariado.

Outra particularidade nacional: há quatro ex-ministros das Finanças a comentar (6% do total), bem como outros ex-governantes. Acresce que os ‘nadólogos’ — os especialistas em nada — como Sousa Tavares, Marques Lopes ou Daniel Oliveira, também tendem a defender o ‘sistema’, o que consideram consolidar a sua posição.

Na minha apreciação subjectiva, 51 em 58 dos comentadores (88%), aberta ou veladamente, de ‘esquerda’, ‘centro’ ou ‘direita’, são defensores do ‘sistema’. Apenas sete (12%) não são ‘sistémicos’. 

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Algo se perdeu no cinema com o fim dessa dependência total da imagem. Mas o paradoxo é que milhões em todo o mundo aderiram nos últimos anos a imagens em movimento sem som: são os pequenos vídeos que nos aparecem nas redes sociais, como o Facebook. São feitos para não terem som.

E, mesmo quando têm, são disponibilizados com legendas para os milhões que, afinal, os preferem silenciosos. Quer dizer, os novos dispositivos de comunicação recuperaram a criação e o consumo de imagens em movimento sem som de fundo e da expressão verbal. Pode ser que este novo hábito traga de volta o interesse pelo melhor cinema mudo.

E há tantas obras-primas à nossa espera! 

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