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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Eduardo Cintra Torres

Trump apossou-se da telelinguagem

Os adversários fazem política na televisão, enquanto Trump faz televisão na política.

Eduardo Cintra Torres 28 de Fevereiro de 2016 às 00:30
As elites económico-financeiras perceberam, logo no século XIX, que tinham de abrir o sistema político ao maior número, através da democracia parlamentar, sem perderem o seu controlo. O acesso de partidos fascistas e comunistas ao poder foi um doloroso intervalo, mas ainda no século XX a democracia parlamentar, controlada pelas elites, as mesmas ou cooptando gente da chamada esquerda, recuperou a compostura. No século XXI, a democracia parlamentar parece já não comportar o sentimento dos cidadãos empoderados pelas tecnologias da comunicação e pelo deslassar das hierarquias e estruturas. Num certo sentido, a democracia parlamentar, feita à medida das elites (mas infinitamente melhor que as ditaduras), sempre esteve "bloqueada", mas só agora milhões o sentem. Mais gente considera o poder como estando ao serviço dessas elites — e os media tradicionais ao serviço do poder. O afastamento da política, em especial dos jovens, resulta da sensação de que o poder político é sempre "para os mesmos" e que os media tradicionais os servem.

Os liberais norte-americanos deram a volta a esse desinteresse empenhando-se em programas de TV divertidos muito dedicados à política: os talk shows nocturnos, como o ‘The Daily Show’ e outros. A crítica política feita nestes programas de entretenimento é excelente e amiúde dum brilhantismo e virtuosismo extraordinários. Estudos revelam que é através deles que milhões, em especial jovens, contactam com a política, contacto que se prolonga pelas redes sociais. Esses programas traduzem os acontecimentos políticos, mostrando-os e interpretando-os com recurso à poderosa arma do humor. Usam a linguagem própria do entretenimento e da TV, muitas vezes escarnecendo do jornalismo dos media tradicionais.

O que agora vemos na corrida presidencial nos EUA é um duplo reverso da medalha: Donald Trump transformou o cerne da acção política em entretenimento nesse género — mas com o mais antiliberal dos discursos. Age e fala como um entertainer, é desbocado como um apresentador de talk show, insulta como os telecomentadores rascas. Já conseguiu atrair milhões para propostas políticas altamente reaccionárias, bélicas, racistas e xenófobas. Tal como os talk shows liberais, goza com os media jornalísticos, mas ameaça-os. Transformou as eleições presidenciais num concurso televisivo, num reality game show, género em que adquiriu experiência e lhe deu notoriedade nacional. Ao pé dele, os outros candidatos do seu partido, os republicanos, parecem uns meninos da escola antiga. Os adversários fazem política na televisão, enquanto Trump faz televisão na política.

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A ver vamos: Debate - RTP a reboque de ideias externas 
Cronologias de Portugal Contemporâneo (1960-2015), na Internet, e debate Durão-Guterres: duas interessantes iniciativas, não da RTP, mas na RTP. Foram acções promovidas pela Fundação Francisco Manuel dos Santos que a RTP recebeu. A cronologia é ilustrada com imagens do seu arquivo. O debate atraiu atenção para a RTP 1, que, pelos seus programas desenxabidos e de desinteresse público, vai perdendo audiência. Barroso e Guterres participaram menos num debate do que em entrevistas simultâneas, mas proporcionaram um programa interessante, dadas as experiências internacionais de ambos na última década. As entrevistas não foram confrontacionais, o que não se justificava, mas empáticas; falaram de temas internacionais, o que é cada vez mais raro nas entrevistas a políticos nacionais. Barroso fez uma declaração importante sobre a política europeia da França, mas, como nos media ninguém lê e acompanha política externa, não teve qualquer impacto. 

Já agora: Presidência ao estilo do ‘Jornal das 8’
O concerto que Marcelo oferecerá ao povo, com Anselmo Ralph, Pedro Abrunhosa e José Cid — música popular e ídolos da TV —, anuncia uma das suas faces em Belém: populismo presidencial à imagem do ‘Jornal das 8’, no qual ele mesmo foi substituído por música do género. Só veremos depois a outra faceta: a do político que respira política há 50 anos. 
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