Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
4
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Eduardo Cintra Torres

Um presépio presidencial

Não será pelo valor artístico, mas o quadro ficará como um documento histórico de 2017.

Eduardo Cintra Torres 24 de Dezembro de 2017 às 00:30
Este presépio, divulgado no ‘Expresso’, foi pintado por um habitante de Nodeirinho, aldeia de Pedrógão Grande, onde morreram onze pessoas — um terço da população — no grande fogo de Junho.

O pintor, João Viola, explicou ao jornal que "as vestes do pastor têm as cores da bandeira de Portugal e simbolizam todos os portugueses que fizeram donativos" para que quem perdeu as casas receba novas habitações.

O pastor é o presidente da República. O pintor escolheu-o "como um reconhecimento pela pressão que ele fez neste sentido". A pintura é convencional, tendo motivado interesse, críticas e gozo apenas por incluir o presidente.

O presépio — termo latino usado em português desde o séc. XV para significar a manjedoura bíblica — é episódio de pouca importância nos Evangelhos. Tornou-se dos mais comuns na pintura ocidental desde que S. Francisco de Assis organizou o primeiro de todos os presépios, com gente viva. O mesmo acontece na aldeia de Priscos, onde, nem por acaso, Marcelo o integrou este ano.

No quadro de Viola, o presidente segura um bordão, como S. José. Os dois bordões delimitam o olhar nas figuras centrais: Maria, Jesus (crescidote, para quem acaba de nascer), um querubim que olha o presidente, e o pastor Marcelo, com a miniatura duma casa popular na mão: Marcelo dá a Jesus a casa que ele não teve para nascer.

O presidente debruça-se sobre Jesus na posição com que abraçou e encostou a cabeça, de pescoço esticado, a uma velhota chorando depois dos fogos, momento registado numa das fotos mais divulgadas de 2017.

S. José está na pintura apenas para cumprir a veracidade do presépio e permitir a composição desejada, pois o ponto de vista do observador é o do anjo: só interessam Maria, Marcelo e Jesus. S. José nem mesmo tem auréola, como Maria tem. A sombra escurece-lhe a face. A luz concentra-se nas figuras centrais. Marcelo é a figura mais definida; as restantes são tipos ideais.

O pintor retomou uma tradição antiga na pintura ocidental. Há milhentos quadros em que os promotores das pinturas — os clientes do pintor — se fizeram representar em cenas com Jesus, santos, etc. Com uma diferença: os pintores antigos costumavam pô-los à margem, assinalando dois tempos na composição: o da cena religiosa e o dos doadores.

Neste quadro, nem Marcelo promoveu a pintura nem está à margem do episódio: é parte integrante e protagonista. Não será pelo valor artístico, mas o quadro ficará como um documento histórico simbolizando 2017.

Marcelo está presente — mas alguém está ausente: para o pintor, no ano dos fogos que ainda ardem em memória no Natal, o povo só teve um pastor.

A VER VAMOS
RTP
Administrador dono de canal privado
Conivência de governantes, deputados e mais personagens da política com a raríssima Paula? Escândalo! Viagens de governantes à pala de empresas? Escândalo! Pseudobispos traficando crianças com o aplauso do Estado? Escândalo! A divulgação de escândalos, porém, é selectiva.

Nenhum outro media se interessou pela informação prestada pelo Correio da Manhã: um gestor público é dono — o único dono — duma empresa concorrente da empresa pública que administra. Trata-se de Artur Silva, administrador da RTP. É administrador da RTP há quase três anos e desde então permanece único proprietário da empresa PF, dona do canal Q.

Esta ilegalidade, tal como a do administrador de empresas Seixas da Costa no CGI da RTP, é permitida pelo proprietário Estado, pelo governo (agente executivo do Estado), pela Entidade Reguladora da Comunicação (ERC), pelo CGI da RTP e pelo Conselho de Opinião da RTP; e é silenciada pelos outros media. Quem nos protege do sistema?

JÁ AGORA
Mandato da nova ERC é salvá-la da abjecção
Em Março exprimi a sugestão de um juiz presidir à ERC. Concretizou-se agora. Três dos eleitos no parlamento para a ERC escolheram um juiz (o quarto, do PS, votou contra, confirmando a actual aversão do PS à Justiça). Terminará a abjecta ERC de 2005-17?

Espero que a nova ERC esteja do lado da lei, dos cidadãos, e não do governo do momento.
Eduardo Cintra Torres opinião
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)